quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Descoberta de Leif Erikson



O explorador islandês Leif Erikson segundo os dados históricos mais precisos viveu de 970 a 1020.  Não é exatamente alguém lembrado pela maioria das aulas de história como Cristóvão Colombo, mas Leif esteve na América quase 500 anos antes de Colombo.  Suas viagens são contadas, com certo grau de imprecisão, na Saga de Erik o Vermelho e na Saga dos Groenlandeses.  Os motivos para as Américas falarem em sua grande maioria espanhol, inglês e português ao invés de uma língua nórdica são vários e merecem uma certa reflexão.

No ano 1000, em plena Idade Média, as principais nações européias estavam fragmentadas e sofriam para repelir os vários invasores bárbaros.  Espanha e Portugal travavam lutas por sua independências dos invasores árabes que dominaram por quase 500 anos a Península Ibérica.  A França apesar de Carlos Magno se fragmentou em vários feudos por volta desta época.  A Inglaterra também feudal lutava contra as constantes invasões vikings, sendo que estes naquela época chegaram a estabelecer domínio sob parte de território inglês que incluía a cidade de York.

Os vikings eram grandes exploradores, segundo relatos estiveram além da Grã-Bretanha no norte da África, Sicília, Rússia, Ucrânia e até em Bagdá.  Mas foram imortalizados na memória popular pelo terror que os saques em território inglês impunham na população local.  Apesar das pilhagens, os vikings tinham uma extensa rede de comércio pela Europa e oeste da Ásia, avançados conhecimento de navegação e tecnologia naval.  Os povos nórdicos estabeleceram colônias em ilhas do Atlântico Norte como as Faroe e principalmente na Islândia.  Mas não pararam por aí e estabeleceram uma colônia na Groenlândia, inicialmente mal-sucedida.  Tecnicamente a maior ilha do mundo já é no continente americano, então a data da primeira colônia americana é, de acordo com relatos das sagas, 985 quando Erik o Vermelho chegou à ilha americana com 14 navios.  A primeira colonização da Groenlândia durou pouco mais de 500 anos, por motivos ainda não esclarecidos a população nórdica naquela ilha simplesmente sumiu.

O mais impressionante é que o filho de Erik o Vermelho, Leif Erikson, foi além de seu pai.  Após ouvir relatos de um outro navegador, Bjarni Herjólfsson, de ter avistado terras ao oeste da Groenlândia, Leif montou sua expedição para descobrir estas terras.  Chamou seu pai, mas este pelos relatos caiu de um cavalo e não embarcou na expedição por ter machucado o pé.  Mesmo assim Leif reuniu cerca de 35 corajosos para ir além da Groenlândia.  Leif e seus bravos seguidores chegaram na América, no atual leste canadense, em três locais sendo que o último deles foi batizado de Vinlândia, que alguns acreditam ser na ilha canadense de Terra Nova.  Atualmente, acredita-se que a Vinlândia seria no Golfo do Rio São Lourenço, no Labrador.  Os relatos das duas sagas são um tanto questionáveis, mas acredita-se que a viagem de Leif tenha sido em torno de 1001.  Leif e seus irmão exploraram a Vinlândia por quase uma década, tentaram criar um pequeno estabelecimento em solo americano, mas notadamente não foram bem sucedidos.  Um de seus irmãos, Thorvald, foi morto em um confronto com nativos americanos em 1004 e outro, Thorstein, morreu antes de zarpar da Groenlândia para a Vinlândia.  Apesar de relatarem uma terra rica em salmão, uvas e madeira, o fato é que a colonização nórdica fracassou.  Hoje o que resta na são as ruínas de L’Anse aux Meadows na Terra Nova, uma aldeia que talvez tenha sido construída para reparos nos navios dos exploradores nórdicos.

Algumas hipóteses podem ser tecidas para explicar este fracasso, vários historiadores atribuem às hostilidades entre os nativos e os exploradores o fato destes últimos desistirem de se aventurar mais no continente americano.  Acredito que os povos nórdicos naquela época não tinham recursos para se aventurarem tão distante.  Os vikings tinham seus negócios focados na Europa e na Ásia, e um empreendimento tão distante era nada atrativo.  A população nórdica pelas estimativas históricas não deve nem ter chegado perto de 1 milhão de habitantes.  Simplesmente não havia nórdico suficiente para se colonizar muito além da Islândia.  O custo de se trazer produtos da Terra Nova seria proibitivo em comparação com os custos de produtos semelhantes oriundos da Europa e da Ásia, o que traria inevitáveis prejuízos.  E, é claro, Erik o Vermelho e sesu filhos apesar de todo o empreendedorismo não tinham capacidade e nem o conhecimento de criar uma indústria local, estabelecer um diálogo com os nativos americanos, divulgar sua descoberta, comercializar os produtos americanos em outros locais, em suma faltou marketing para eles serem bem sucedidos.

O fracasso da primeira colonização na Groenlândia mostra que havia uma limitação para a expansão colonial nórdica.   Quando Colombo chegou à América, quase 500 anos depois de Leif, a Espanha tinha um contingente maior de recursos para investir naquela empreitadas, sem contar a motivação de buscar novas rotas de comércio após a queda do Império Bizantino e a dificuldade em se restabelecer as rotas pelo Oriente Médio.  Inglaterra e Portugal também foram bem sucedidos na colonização do continente americano, enquanto França e Holanda tiveram resultados pífios em comparação com estas três nações.  A Rússia também chegou ao continente americano bem depois mas desistiu oficialmente da empreitada vendendo o Alaska para os americanos.  Este aliás um negócio à primeira vista ruim para os russos dado a quantidade de ouro e petróleo naquelas terras, mas justificável sob a ótica que era difícil o acesso de Moscou ao Alaska uma vez que a rota de suprimentos teria de atravessar o vasto e pouco desenvolvido norte do continente asiático.

A primeira descoberta da América nos deixa a lição que nem sempre os pioneiros de um avanço tecnológico ou de uma descoberta científica serão aqueles que colherão os louros do sucesso.  No Brasil, podemos lembrar que fomos pioneiros no uso de etanol como combustível de automóveis, mas isso não garantiu que nos mantivéssemos na vanguarda da tecnologia sucroalcooleira.  Apesar das condições ótimas para o cultivo da cana de açúcar, passamos pelo vexame de importar etanol.  Pode-se dizer que o Brasil dormiu no ponto.  Não é um fracasso retumbante como a colonização nórdica na América, mas algumas questões são levantadas para justificar termos sido ultrapassados.  Faltou ao Brasil uma busca maior por aprimoramento tecnológico, recursos humanos necessários para se pesquisar mais sobre este processo, tanto no aspecto tecnológico como mercadológico, e também uma visão empresarial mais arrojada e menos acomodada.  Não custa lembrar que este último fator resultou na década de 1990 na reversão da frota que era quase de 90% de carros a etanol para quase 90% de carros a gasolina, após os usineiros deixarem todos os consumidores sem etanol nos postos para produzir açúcar.  É claro que as condições macroeconômicas atuais não favorecem tanto o etanol, mas certamente o Brasil deveria estar em melhor colocado.

Vários exemplos podem ser comparados com este fracasso histórico.  Nações, empresas, indivíduos muitas vezes serão pioneiros em algum momento, mas sem os recursos necessários rapidamente perderão a dianteira.  Os cientistas brasileiros que conseguirem nestas terras ter a capacidade de triunfar diante de tantas adversidades muito provavelmente serão convidados para continuarem suas pesquisas em outros países com melhores condições, algo que já é bem comum diga-se de passagem e não exclusivo ao Brasil.  Faltam recursos de todos os tipos para o Brasil desenvolver inúmeros tipos de tecnologias pioneiras.  Empresas pequenas que desenvolvem novos produtos são muitas vezes compradas por empresas bem maiores que possuem recursos financeiros muito mais abastados.  Basta ver o que aconteceu com o Waze e o WhatsApp recentemente adquiridos por Google e Facebook.  Na contramão, pode se lembrar da Netscape que resolveu enfrentar a Microsoft e se deu mal.

Acredito que se Leif Erikson tivesse nascido 500 anos depois, teria sido contratado ou pelos ingleses ou pelos espanhóis para tocar expedições para a América.

Do Desespero à Euforia e de Volta ao Desespero



Quem vivenciou a redemocratização neste país na segunda metade da década de 1980 vai lembrar de  alguns peculiares momentos que foram enfrentados naquela época.  Muitos deles nada agradáveis, como hiperinflação, recessão, escândalos de corrupção, mas também houve uma enorme euforia com o Plano Cruzado, esta turbinada pela recém vivência da eleição de Tancredo Neves em 1985.  Lá nos idos de 1986, José Sarney e o finado ministro da fazenda Dílson Funaro vieram com um plano simples para conter inflação, que já passava dos 200% ao ano: proibir aumento de preços.  Era uma solução simples que rapidamente foi espalhada pelo país, surgindo os vários “fiscais do Sarney” para coibir os “vilões”, como gerentes de supermercados que “queriam esfolar a população”.  Para quem ficou impressionado com as manifestações recentes, talvez não se lembre o que foram consumidores gritando diante das câmeras e “fechando estabelecimentos em nome de Sarney”.  Não é necessário lembrar que essa solução simples e absurdamente equivocada não duraria além da eleição geral de 1986, algo parecido com que houve no ano passado.  O governo Sarney terminou com uma inflação mensal de 80% em 1990.  Era o desastre.

A ditadura militar alavancou o PMDB à condição de partido que iria trazer o Brasil para o caminho da liberdade e também da prosperidade.  As barbeiragens do governo Sarney, a herança maldita da ditadura militar e a obsessão de Ulysses Guimarães pela presidência enterraram o PMDB que se transformou no atual monstrengo que ele é.  Além dos efeitos nocivos na economia, a crise daquele governo afetou em muito a população brasileira.  O Plano Cruzado devastou várias pessoas e empresas que embarcaram no otimismo desenfreado e depois se viram endividadas até o pescoço.  Desemprego e depauperação sempre foram e serão difíceis de se lidar.  Mas nunca devemos menosprezar os efeitos psicológicos deflagrados por crises econômicas e políticas.

Atualmente vivemos uma onda de mau humor e inconformismo, ou por termos assistido a eleição de Dilma sabendo do desastre que viria ou por termos acreditado nas promessas dela.  Negação, raiva, desespero, depressão e aceitação são os cinco estágios que alguém enfrenta quando se depara com a notícia que irá morrer eminentemente.  Acredito que estes estágios se apliquem também a outras perdas pessoais e também para a população diante de uma situação ruim que se instaura no país.  A negação veio durante o Plano Cruzado quando nos deparamos com sérios indícios que aquela aventura acabaria mal, a raiva veio em seguida quando Sarney enfrentou vários protestos e manifestações além de ver sua popularidade ser dizimada, e o desespero veio com a eleição de 1989 para presidente.

Os momentos mais vulneráveis que alguém enfrenta durante a vida são aqueles no qual está desesperado.  O pânico e a vontade irracional de remediar ou reverter uma situação de desespero faz com que as pessoas tomem decisões erradas.  Todos já ouvimos estórias de pessoas que acreditam em verdadeiros charlatões para resolverem problemas de saúde, dinheiro e afeto.  Basta olhar a TV aberta durante a madrugada para testemunhar a quantidade de charlatões prometendo o céu na terra para se ter uma ideia do quão perigoso é o desespero.  Quando uma população está desesperada, os charlatões são até mais perigosos.  Basta ver os três mais votados e suas propostas de governo em 1989.

O que Lula e Leonel Brizola, respectivamente segundo e terceiro mais votados, propunham era o decreto de arruinar economicamente o país por um bom tempo.  Tanto que Lula jamais cogitou durante seus mandatos dar calote na dívida externa, estatizar bancos privados, ou aumentar irresponsavelmente o salário mínimo.  Mesmo assim ele nos endividou mais ainda, pilhou os bancos estatais e aumentou vergonhosamente o salário de alguns seletos companheiros!  Já Brizola nem programa de governo tinha...

Mas o Brasil elegeu notoriamente Fernando Collor, alguém que vinha com a promessa de modernidade e com a fama de Caçador de Marajás.  O fato que Alagoas, onde governou, jamais ter se livrado de seus “marajás” era indício que Collor não seria a solução.  E lembro de um que debochadamente prometeu desfilar de elefante para receber o seu salário de funcionário público fantasma.  Collor por mais que as pessoas esqueçam tocou durante sua campanha em pontos que realmente são necessários para colocar o país nos trilhos.  Foi um dos poucos que prometeu austeridade fiscal, diminuição da máquina governamental e privatização das estatais.  É claro que a ausência de suportação política no congresso, uma equipe econômica incompetente, acessos de megalomania e enorme ganância para enfiar a mão no dinheiro público fizeram com que seu governo fosse um fracasso de bilheteria e terminasse antes do que o previsto.  Além de não ter matado a inflação com um tiro só e ter substituído seus ministros “imexíveis”, Collor nos jogou em uma recessão sem paralelo (ainda).  Pelo menos deu início às privatizações neste país e derrubou algumas proteções comerciais medievais, tudo isso a um preço muito caro.  Depois do desespero da eleição de 1989, veio a depressão com a dura realidade do governo Collor.  Ainda bem que nunca chegamos ainda no estágio da aceitação.

Lula também chegou ao poder em 2002 sob uma enorme onda de euforia neste país.  Testemunhei várias pessoas que acreditaram que o país finalmente elegeu o líder que nos colocaria no caminho da virtuosidade.  Euforia enorme que cegou boa parte da população que não se atentou à vertiginosa escalada da corrupção e à deterioração dos fundamentos econômicos.  O resultado foi que Lula conseguiu empurrar à população Dilma e toda a sua incompetência.  Beira o inacreditável que alguém como ela tenha sido reeleita neste país.

O Brasil se encontra em uma situação extremamente delicada.  A crise política impede que se resolva a crise econômica.  O país precisa que se resolva problemas estruturais gravíssimos como falta de infra-estrutura, de educação e de escassez de mão-de-obra, de segurança pública entre outros.  A nossa reputação com o exterior, onde estão potenciais investidores, está arranhada seriamente pela incompetência e atitudes equivocadas na política de relações exteriores.  Necessitamos urgentemente de reformas políticas, tributárias, previdenciárias e trabalhistas.  O combate à corrupção tem de ser intensificado para muito além da Petrobras.  Tudo isso demandará muito tempo para ser feito, talvez décadas, o que privaria pelo menos uma geração de ver um país melhor.


O desespero de vivenciar um país com uma economia abalada que afeta seriamente a vida de vários é um risco sério para todos nós.  O que não faltam são aventureiros neste país com promessas de resolver quase que imediatamente todos os nossos problemas.  Collor foi um que foi rapidamente expurgado, recebeu o país em frangalhos e nos quebrou mais um pouco.  Lula recebeu o país em melhores condições e promoveu uma verdadeira farra com o dinheiro alheio.  Deixou Dilma na presidência além de inúmeros outros esqueletos.  Cabe aos brasileiros não se desesperarem e nem se deixarem levar por euforias momentâneas.  O país só caminhará para frente com muito trabalho árduo e sacrifício de todos, pobres e ricos.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Combinação Tóxica de Orgulho com Irresponsabilidade



Credibilidade é algo que se conquista a duras penas e se perde rápido se não se tomar cuidado.  Quem não entende isso, sofre as consequências durante a vida.  As nações também precisam ter credibilidade, não só dos seus líderes mas principalmente de seu povo.  O maior mal da democracia é que se o povo escolhe mal, a credibilidade da nação, do povo e dos líderes é afetada.  Lá no final da década de 1980, o país se encontrava em caos financeiro tendo um panorama de hiperinflação, dívida externa astronômica e algo que poucos comentam que era um duradouro e danoso déficit fiscal.  Qualquer país que não queira sofrer com inflação e endividamento, tem que atacar o déficit fiscal, pois esses dois problemas são decorrentes do déficit.  O governo também pode aumentar impostos, como está fazendo agora, para atenuar este problema, mas há um limite para se cobrar impostos e após um ponto a arrecadação diminui, algo que muitos em vários governos parecem esquecer. 

A real solução para reduzir o déficit e transformá-lo em superávit é o controle das contas públicas, não há outra maneira e qualquer outra alternativa é enrolação.  O histórico do Brasil desde o fim da ditadura militar é do uso de inflação, endividamento e aumento de impostos para tapar os rombos.  Com o Plano Real a inflação, pelo menos a hiperinflação, deixou de ser uma opção e para se diminuir os custos a administração de Fernando Henrique Cardoso acelerou as privatizações o que trouxe o benefício de gerar caixa.  Vender ativos, ainda mais aqueles que dão prejuízos, é sempre necessário, mas seu efeito é de duração limitada.  Como a administração FHC, apesar de ter em momentos intuitos de reduzir custos não foi bem sucedida neste objetivo, então teve que passar o chapéu para conseguir empréstimos.

Quando alguém precisa coibir déficits pessoais, este não tem como emitir dinheiro, e se conseguir estará infringindo a lei falsificando dinheiro, ou cobrar impostos, a não ser que infrinja de novo a lei roubando dinheiro alheio.  Então sobram as opções de vender ativos ou pedir dinheiro emprestado.  Como venda de ativos nem sempre é possível, o jeito é apelar para empréstimos.  Os possíveis credores sempre olharão o histórico de crédito do futuro devedor e também a capacidade do sujeito ter como pagar o empréstimo, isto é em um dado momento o devedor tem que ser superavitário e não deficitário.  Ninguém consegue chegar em um banco bufando e proferindo retóricas e obter um empréstimo a juros camaradas sem demonstrar que conseguirá honrar os empréstimos.  Se conseguir pode desconfiar da instituição que emprestou os recursos!  E não levo em conta os empréstimos feitos por amigos e familiares pois estes muitas vezes são na verdade doações onde nunca mais se verá o dinheiro cedido.

Pois bem, quando o Brasil precisava de socorro, tínhamos a nossa reputação arranhada.  Havíamos declarado moratória no final do governo Sarney e a então oposição feita pelo PT e seu líder Lula alardeava sempre que possível que a solução para o Brasil era o calote.  Quem em sã consciência emprestaria dinheiro para nós com este panorama?  Para isso servia o FMI, uma instituição multinacional com o propósito de socorrer nações em desespero.  Obviamente esse dinheiro viria com um preço que era o escrutínio das contas brasileiras por parte dos credores.  Entre as várias exigências estão a apresentação de um superávit primário, que nossos governos só conseguem ou aumentando impostos ou cortando os gastos com investimentos, pois ai de quem mexer na máquina gorda e lenta do governo.

O problema para o devedor é o constrangimento público deste escrutínio.  É o orgulho ferido de quem esbanja mas não tem como arcar com a opulência.  Como diria Lobão, o músico, é Décadance avec Élégance.  No ocaso de seu mandato, FHC começou a ser atacado por se submeter aos “caprichos” do FMI.  Segundo o ultra populista Lindberg Farias, estávamos se curvando a engravatados que trabalhavam em escritórios com ar condicionado.

E então veio Lula e a euforia tomou conta deste país nos primeiros anos da administração lulopetista.  Como Lula, para nossa sorte, não deu o alardeado calote na dívida brasileira pois não era um completo irresponsável, a reputação brasileira perante o mercado financeiro melhorou e foi possível se trocar nossa dívida do FMI por a de outros credores, sendo que alguns imagino eu cobrem juros maiores pois antes de 2008 o Brasil não possuía grau de investimento.  O problema do déficit fiscal no início do lulopetismo era algo a ser atacado, pelo menos para o ministro da fazenda Antônio Palocci.  Como este sucumbiu a vários escândalos de corrupção, a condução da política econômica foi passada para Guido Mantega, um economista com incrível capacidade de fazer previsões furadas e elaborar medidas equivocadas.  Mas o país naquele instante vivenciava os louros do período quase-malthusiano em que nossas commodities eram vendidas a preço de ouro para financiar o esbanjamento do lulopetismo e sua corrupção.  A propaganda e a euforia fizeram com que a população não se desse conta que nossa dívida externa não está paga.

Agora, o rei está nu.  Quem não viu que as contas do Brasil estão em situação calamitosa, está vendo muito claramente isso.  No lugar de Mantega, veio Joaquim Levy, o homem com perfil que o mercado pedia.  O Brasil está sob o escrutínio de todo o mundo financeiro.  Não estamos devendo para o FMI então não precisamos apresentar superávit primário para este, mas à priori temos de mostrar isso para as agências de risco como Moody’s, Standard & Poor e Fitch, que tem histórico questionável pois erraram em suas previsões quase tanto como Mantega.  Já está difícil rolar a dívida brasileira, os investidores estão cautelosos, para não dizer receosos, com o Brasil e o vácuo que impera no executivo brasileiro.  O ajuste fiscal que Levy enfiou goela nossa abaixo é o preço da irresponsabilidade de se promover uma verdadeira farra com o dinheiro do contribuinte.  É pior do que aqueles que o FMI exigia, pois esse ajuste não inclui frear essa farra do governo com 39 ministérios e afins.  Não adianta alardear que somos credores do FMI pois isso só ilude os mais tolos orgulhosos xenófobos que se preocupam mais com aparência do que substância. 


sábado, 18 de abril de 2015

Os Tímpanos Brasileiros



Apesar de ter mais de 80 anos desde o lançamento de Tintin na Rússia (Tintin au Pays des Soviets) em 1930, as estórias do cartunista belga Georges Remi, o famoso Hergé, sobre as aventuras do protagonista Tintin e seus amigos ainda encontram bastante fãs e são capazes de gerar polêmicas.  O seu segundo livro, Tintin na África (Tintin au Congo), foi atingido pela onda do politicamente correto e considerado racista e, portanto, banido das editoras.  O detalhe é que quem leu Hergé, sabe que ele não tinha desprezo só pelos africanos, e sim por boa parte da população mundial exceto os europeus ocidentais.  O desprezo que tinha pelos japoneses, árabes, americanos, etc era explícito em seus livros, porém poupou os chineses e os ciganos.  E é claro que sobrou para os latinos americanos também, no qual dois livros são dedicados a esculhambar a política em geral dessas bandas.  O primeiro é o Ídolo Roubado (L'Oreille Cassée) de 1937 no qual cria o fictício país de San Theodoros onde o governante é o General Alcazar.  Este tinha uma miríade de coronéis ao seu redor, todos amigos deles e sem muito cacoete para terem alguma função importante no governo.  Alcazar gostava de passar o dia jogando xadrez, de preferência contra alguém que o deixasse ganhar.  As decisões mais importantes de Alcazar, como a declaração de guerra contra Nuevo Rico, eram tomadas de acordo com os interesses de multinacionais que o mantinham na folha de pagamento. 

Já em Tintin e os Tímpanos (Tintin et les Picaros) de 1976, a crítica aos governantes latino-americanos é igualmente ou até mais ácida.  A estória relata a tentativa do General Alcazar de retomar o governo do General Tapioca que o havia deposto e aprisionado amigos de Tintin.  Este úlitmo então resolve auxiliar seu velho amigo Alcazar e sua trupe de esfarrapados, os Tímpanos, a retomarem o governo.  No início da estória, o avião que traz amigos de Tintin para San Theodoros sobrevôa uma favela da capital onde há uma placa dizendo “Viva o General Tapioca”, e no final da estória após o golpe de estado ser consumado, quando todos voltam para a Europa, a placa diz “Viva o General Alcazar”, mas nada muda na favela.  Isso sem contar que a trupe que apoiava Tapioca rapidamente debanda e passa a apoiar o Alcazar.

Hergé era preconceituoso e, portanto, muito do que escrevia tinha que ser minimizado, mas em vários pontos ele tinha bastante razão.  O aparelhamento promovido pelo PT no governo federal é muito bem representado, a diferença é que muito poucos jogam xadrez, ao invés nem aparecem para trabalhar, pois quando aparecem são capazes de atrapalhar.  Os golpes militares que eram comuns nestas bandas no século passado muitas vezes só trocavam o nome na placa.  As condições precárias das favelas não mudaram ao longo dos anos.  E o que permanece é o conceito que soluções milagrosas para o país sairão de líderes autoritários.  Em 1964, os militares com algum apoio popular apearam do poder o “simpatizante do socialismo” Jango Goulart e em tese deveriam restabelecer a democracia logo em seguida.  O resultado foram 21 anos de ditadura que nos entregou uma hiperinflação de mais de 200% ao ano na época, uma corrupção endêmica no país, um endividamento monstro, a Lei Falcão que distorce a representação popular do congresso, argumentos inesgotáveis para todo esquerdista se achar um autêntico democrata e para a demonização da direita.

O Brasil padece de uma crise política sem precedentes, no qual o governo sucumbiu ao vácuo criado por ele mesmo, que impede que se ataque frontalmente a crise econômica.  Existem problemas estruturais no qual muito pouco é feito como infra-estrutura capenga, sistema tributário kafkiano, previdência pública que engole os recursos da nação, legislação trabalhista obtusa e um enorme contingente de brasileiros que carecem de instrução mínima para que possam sair da miséria.  Quais desses problemas os militares têm condições de sanar ou executar um plano para sanar?  Não que um militar não possa ser capaz de liderar uma nação e lidar com estes problemas, mas não consigo visualizar nenhum neste momento que possa fazer isso.  Pior, após consumado o golpe, impreterivelmente os golpistas se alinhariam com boa parte das oligarquias locais existentes.  É o que foi feito em 1964 e em 1985, e também pelo próprio PT quando este assumiu o governo!  As rêmoras que pegam carona com os tubarões atuais simplesmente se atracariam aos novos tubarões.  Algo semelhante ao que Hergé retratou em Tintim e os Tímpanos.

A argumentação daqueles que gostariam de um golpe de estado geralmente inclui que os militares defenestrariam o PT do poder acabando com a corrupção praticada pela turma de Lula, Dilma, Rui Falcão e cia.  Realmente um golpe poderia punir os corruptos do PT, que são os mais vorazes já vistos nestas terras, mas não acabaria com a corrupção no país pois como a turma do PT gosta de alardear ela é uma velha senhora.  Quem tem que combater a corrupção é a justiça, o que está sendo feita, e no momento que a população clama por ritos sumários ao invés de devidos processos é que há um problema maior do que imaginamos.  E além da justiça cabe a nós também combatermos a corrupção.  Em 2006, os eleitores de Lula simplesmente fecharam os olhos para o Mensalão.  Ou optaram por ignorar os fatos ou optaram pelo cinismo sabendo que havia um escândalo de corrupção mas relevaram isso a segundo plano.  No momento que um povo não pune nas urnas os corruptos, o país é punido como um todo pelos corruptos.  Paulo Maluf e o PT mostraram que não há limite para a ganância e um ladrão não tem uma meta a atingir para depois parar de roubar, o ímpeto de continuar roubando é infinito.  O Petrolão é a prova que a eleição de 2006 foi um duro golpe à nossa democracia.  E aí reside o problema que não será sanado com um golpe militar, pois boa parte da população brasileira continuará sendo conivente com a corrupção.  Nenhum militar será capaz de mudar nossa moral em primeiro instante, apenas um processo longo de educação nos fará sermos intolerantes com a corrupção.  Os militares que nos governaram por 21 anos não conseguiram e o PT certamente nunca teve como intenção mudar este panorama.

O alinhamento do PT com algumas das piores ditaduras do planeta é vergonhoso e qualquer outro partido no governo, que não seja algo como PSTU ou PSOL, teria uma política de relações externas muito mais digna que a atual.  Um golpe nos colocaria em par com estas ditaduras.  Que alguém me aponte um golpe de estado que retirou do poder um presidente eleito de maneira legítima e que realmente tenha colocado o país em rumo virtuoso.


O dano está feito após 12 anos de governo do PT e a crise está aí para quem quiser ver.  Precisaremos de uma justiça diligente e certa para passar a limpo pelo menos os escândalos que se têm conhecimento.  A população tem que entender que o caminho para se colocar o Brasil no rumo certo é longo e penoso, ou seja após a farra vem a ressaca.  Acreditar que soluções mágicas, como aquelas prometidas por Lula em 2002, resolverão os problemas do país é simplesmente trocar a placa da favela como na estória de Hergé.  Basta olharmos para trás para não incorrermos neste erro.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Estudo do Oxigênio



O oxigênio é o segundo gás mais abundante na atmosfera terrestre.  O átomo de oxigênio tem número atômico 8 e massa atômica 16.  Ele compõe cerca de 23% em massa da atmosfera, o que o faz o segundo gás mais abundante da atmosfera.  Sua forma mais comum é o gás diatômico, O2, mas também é de suma importância para o planeta o outro alótropo conhecido como ozônio, O3.  O oxigênio é extremamente reativo, somente os gases nobres não combinam com ele, e graças a isso há vida na terra e é possível fazer fogo para gerar energia térmica.  Os seres vivos dependem do oxigênio para a respiração aeróbia no qual este gás combina com glicose gerando energia, dióxido de carbono e água.  Os combustíveis só reagem desprendendo energia se haver a presença de um comburente, o oxigênio, para possibilitar a combustão.

Esses factóides são de conhecimento de quem terminou o colegial e pensa em ingressar em uma faculdade, especialmente uma de medicina, ou de engenharia ou até outras.  Pelo menos é o que se espera.  Mas será mesmo que os egressos do ensino básico têm este conhecimento?  Na verdade, deveriam até saber em mais detalhe a química do oxigênio para melhor compreenderem as disciplinas ministradas em um curso superior.  Na medicina, por exemplo, este conhecimento é necessário para o estudo do sistema respiratório, e na engenharia para o estudo da combustão.  Se o aluno que cursa uma faculdade não tem este conhecimento dificilmente terá capacidade de acompanhar um curso sério.  E aí reside um dos maiores problemas da educação brasileira que é a crença que o diploma universitário é sinônimo de conhecimento e garantia para o sucesso.

O aluno ao ingressar em uma faculdade deveria possuir conhecimento além dos gases que compõe a atmosfera terrestre.  Um bom início seria falar português corretamente, o que nos dias atuais é considerado como um elemento discriminador das camadas mais humildes que se julgam no direito de conjugar os verbos na 3ª pessoa do singular mesmo com o sujeito exigindo a 1ª pessoa do plural.  Devido à quase falência do ensino público e aos preços exorbitantes do ensino privado, uma boa parcela de jovens brasileiros foram e continuam sendo alijados de ensino básico.  A solução criada em terras tupiniquins, apesar de não ser exclusiva ao Brasil, foi a de se “corrigir” este problema facilitando o acesso ao ensino superior, não necessariamente ao ensino superior de qualidade.  O problema é que este alijamento resulta em um alto número de aspirantes ao ensino superior completamente despreparados.  A maioria vai saber que o oxigênio é necessário para a vida, mas se bobear não sabem nem que nitrogênio é o gás mais abundante na atmosfera.

Na década de 90, foi criada a verdadeira farra das universidades, sendo que qualquer picareta abria na esquina uma universidade oferecendo inúmeros cursos de exatas e humanas.  Não é um fenômeno exclusivo brasileiro, como disse, mas o surgimento maciço dessas universidades talvez seja único a este país.  Estas universidades funcionavam ao melhor “estilo Vampeta” fingindo que ensinavam e os alunos fingindo que aprendiam.  Imprimiam o diploma de pouco valor, mas o aluno pagava um valor considerável para aquela instituição. 

Mesmo os professores universitários sendo os melhores, eles não vão operar milagres e cabe aos estudantes um mínimo de conhecimento para poderem acompanharem os cursos.  Além do mais cabe aos estudantes empenho e capacidade de aprendizagem também.  Várias universidades particulares têm uma sanha de maximizar a arrecadação no curto prazo e impõem aos professores metas de aprovação bem complacentes, o que por sua vez faz despencar a qualidade do curso.  Ao longo prazo isso é péssimo para a instituição cuja reputação é irreversivelmente destruída.  O “Provão”, atual ENADE, foi criado com o intuito de frear essa escalada de impressoras de diplomas, mas apesar de alguns cursos e até algumas faculdades fecharem, muitas perduram com a (falta de) qualidade de sempre.

O FIES, que conseguiu atualmente ser destaque noticiário pelos motivos errados, era para ser o instrumento que proporcionaria o acesso a esses excluídos nas faculdades particulares.  O custo de uma faculdade particular realmente é um desafio grande que impossibilita vários de conseguiram cursar uma faculdade, mas acreditar que este é o único problema é ignorar o problema maior.  Aliás em alguns casos, empresta-se dinheiro a alguém que não tem condições de cursar uma faculdade, nem de devolver este empréstimo e quanto mais de aprender...

Mas eis que surge finalmente o ápice do populismo: garantir vaga em universidades públicas para alunos da rede pública e de auto-intituladas minorias, as famosas cotas.  Pois bem, mesmo com vagas garantidas para estes “desfavorecidos”, quem garante que eles têm condição de se formarem?  A não ser que o nível do curso despenque para facilitar a aprovação, os cotistas terão um desafio árduo pela frente, pois terão além de aprender a matéria ensinada na faculdade, como também aquela que deveriam saber antes de entrar na universidade.  E é neste instante que a qualidade de boas universidades públicas é colocada em xeque.  Resolve-se o problema de acesso dos “menos privilegiados” minando o nosso problemático ensino superior.  É claro que tanto os beneficiados pelos atuais critérios frouxos do FIES como pelo sistema de cotas são potenciais eleitores de governos populistas, como o atual, enquanto que alunos do ensino básico, que deveriam ser o foco das metas de educação do país, não são.

A noção que o problema da equalização de oportunidades para toda a população é simplesmente resolvida com um diploma universitário não pode ser menos equivocada.  Quem passou por dinâmicas de grupo para vagas de estágio e trainees vai lembrar que os participantes eram egressos de universidades públicas e das melhores universidades particulares.  Em São Paulo, nas dinâmicas de grupo que participei estas eram basicamente USP, UNICAMP, FEI e Mauá.  Claro que existem outras no mesmo patamar de qualidade que estas quatro que citei.  Empresas sérias não aceitam profissionais despreparados, então descartavam qualquer pseudo-formado simplesmente nem os selecionando na triagem inicial.  E se aceitarem estarão comprometendo a qualidade da própria empresa.  Na teoria, ninguém deveria ser obrigado a contratar profissionais de menos qualificação.  Quem discorda, que então procure um médico mal formado para ser atendido em caso de emergência.

Na teoria os melhores empregos públicos são reservados para aqueles que se sobressaem em concursos, mas estes já são alvos do populismo que também vai criando cotas para repartições públicas.  Mesmo assim, é difícil se esperar que alguém que não tinha condições de ingressar em uma boa faculdade vá conseguir passar em um concurso concorrido.


A triste verdade é que enquanto não for compreendido que oportunidades para os mais desfavorecidos serão só conquistadas quando estes tiverem uma educação básico sólida, a educação superior estará em xeque.  O país carece de bons profissionais em várias áreas e essa carência não será resolvida com voluntarismo e muito menos com populismo.  Infelizmente é um trabalho que tem de ser iniciado agora para se colher frutos daqui a quase 15 anos.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Quando a Burguesia se Rebela



“A burguesia fede / A burguesia quer ficar rica / Enquanto houver burguesia / Não vai haver poesia”.  Para aqueles que têm mais de 30 anos, a música Burguesia de Cazuza será familiar.  É provavelmente uma das canções mais estúpidas já compostas no país, uma diatribe, composta por um artista super-valorizado.  A música ataca a direita, um ataque feito por alguém que se confessava burguês mas de esquerda, apesar de nunca ter vivido em qualquer país socialista.  Se tivesse um mínimo conhecimento de história e coerência, saberia que a burguesia teve grande importância no estabelecimento de princípios republicanos e democráticos.

Com o fim da Guerra dos 7 Anos em 1763, a França perdeu para a Grã-Bretanha a maioria de suas colônias na América do Norte, mas ambos franceses e britânicos sobraram com dívidas volumosas para pagar.  Como nos dias de hoje, quando uma nação se endivida, quem paga a conta é a população.  No caso da Grã-Bretanha, a conta foi passada para as colônias americanas que, obviamente, não gostaram nenhum pouco e alegaram que as colônias pagaram um preço alto com a vida de vários colonos na guerra.  A coroa britânica subestimou gravemente a capacidade de organização dos colonos, bem como o alto de grau de insatisfação entre eles.  Os treze anos que sucederam ao fim da guerra marcou uma escalada de conflitos entre a coroa e as colônias, em específico a de Massachussetts, em que cada medida imposta para ampliar a arrecadação na América era respondida com crescente insurgência.  As colônias britânicas na América eram prósperas, mas não tinham representação no parlamento britânico, o que enfurecia uma grande parte dos americanos.  Apesar de apenas cerca de 45% dos colonos, os Patriotas, apoiarem a independência, esta foi declarada em 4 de Julho de 1776.  Muitos dos Patriotas eram profissionais liberais, fazendeiros e comerciantes que exigiam sufrágio universal, entre os homens brancos pelo menos.

O início da Guerra da Independência Americana foi duro para os Patriotas, uma vez que enfrentavam uma das maiores potências militares, senão a maior, na época.  Mas o exército de George Washington combatia em seu solo e obteve importantes vitórias contra os britânicos como na Batalha de Saratoga em 1777.  Esta foi o convite para os ressentidos franceses se aliarem aos Patriotas contra seus tradicionais rivais.  Se este não foi o ponto de inflexão no conflito, com certeza sacramentou a investida americana para conseguirem expulsar os britânicos em 1783.  Os franceses tinham como objetivo retomar parte de seus territórios perdidos em 1763, mas só conseguiram ao final do conflito tomar Tobago no Caribe e Senegal na África.  No final, o único objetivo prático foi a pirraça.  Muito pouco para um país altamente endividado pelo conflito anterior e que ainda por cima perdeu boa parte de sua frota naval no conflito americano.  O resultado foi que a França ficou ainda mais endividada.

A França era um país de contrastes, pois enquanto tinha uma população basicamente rural e até locais onde o feudalismo persistia, possuía uma classe média bem estabelecida em suas principais cidades, principalmente Paris, que era conhecida como a burguesia.  Mas o poder era dividido entre o clero e a nobreza, respectivamente o primeiro e o segundo estado.  Estes possuíam a maior parte das terras no país e eram basicamente isentos de impostos.  Quem arcava com os impostos era a burguesia, o terceiro estado, e quem levava o pior era a população mais pobre, que nos anos seguintes amargou até fome devido a safras ruins que encareciam os alimentos, inclusive o pão.  Apesar da escalada da crise, o clero e a nobreza da França não se mostraram realmente dispostos a mudar de postura e continuaram sua política de apertar cada vez mais a população.  O aparelhamento das instituições públicas era extenso e uma maneira de nobres e parentes dos nobres ganharem dinheiro de impostos sem ter que trabalhar.

O resultado foi conhecido, no dia 14 de julho de 1789, após a demissão do ministro das finanças Jacques Necker, que era bem visto pela burguesia, os conflitos finalmente escalaram ao ponto que o rei Luís XVI perdeu o controle da nação.  Uma turba invadiu a Bastilha, a infame prisão parisiense, e apesar de ter basicamente só liberado alguns loucos e falsificadores a invasão é o marco do início da Revolução Francesa.  Os anos seguintes à queda da Bastilha foram marcados por extrema instabilidade política, a burguesia apesar de estar unida contra o clero e a nobreza, não era exatamente unida entre si.  Veio o Reino do Terror com os Jacobinos em 1793 e dezenas de milhares de franceses foram para guilhotina, inclusive a rainha Maria Antonieta, aquela a quem atribuíram a infame frase “Que comam bolo” quando supostamente a informaram que o povo não tinha pão para comer.  A situação demorou para se tornar estável na França.  Napoleão Bonaparte ascendeu ao poder com um golpe em 1799 e só foi destituído com a famosa derrota em Waterloo para uma aliança de nações lideradas pelo Reino Unido.  A democracia demorou muito mais para se consolidar naquele país.

Apesar disso, a Revolução Francesa trouxe importantes reformas sociais, políticas e econômicas à França.  Foram abolidos os privilégios hereditários da nobreza e do clero, e estes dois perderam suas terras e poderes, o feudalismo foi abolido, e um sistema de meritocracia foi implementado inclusive nas Forças Armadas francesas.  A Revolução Francesa para vários historiadores é considerada como o marco do início da Idade Contemporânea e o fim da Idade Moderna.

A burguesia em 1789, e também em parte em 1776, se rebelou contra governos autoritários e parasitas.  Governos que oprimiam a classe trabalhadora e geradora de riquezas para benefício próprio.  Estas insurgências resultaram em ganhos de direitos civis não só para a própria burguesia como para toda a população.  É claro que outros direitos só foram obtidos posteriormente, como o fim da escravidão em 1861 nos EUA.

Com a proliferação do populismo no Século XX e XXI, principalmente o de esquerda, as castas governantes aprenderam a defletir a responsabilidade das mazelas da população em geral para a burguesia, que ganhou a pecha de vilã não só perante a população mais humilde como diante de uma parcela da própria burguesia.  Como o intitulado “poeta do rock” já cantava “Eu sou burguês, mas eu sou artista / Estou do lado do povo, do povo”.  A burguesia deveria ter orgulho de seu passado glorioso.

Se João Santana viajasse no tempo para o período anterior a 1789, ele teria ensinado a Luís XVI a distribuir uma parcela (muito) reduzida dos impostos arrecadados para a população mais humilde para ganhar o apoio desta, a culpar a classe média e o imperialismo britânico pelas mazelas destes humildes para defletir a atenção dos reais problemas estruturais.  Mesmo assim, invariavelmente a monarquia francesa não teria resistido, pois o marketing por si só não é um fim.  Que a cabeça dos nossos primeira e segundo estados terminem na guilhotina moral.  É hora da burguesia exigir os direitos que estão sendo usurpados de nós.

terça-feira, 10 de março de 2015

O Drama dos Satélites do Petrocentrismo



Enquanto a Operação Lava-Jato vai desenterrando todos os esqueletos imagináveis e inimagináveis na Petrobras e agora no “escalão de sacrifício” (vulgos bois de piranha) dos partidos de situação, as empresas de prestação de serviço e fornecimento que negociavam em grande escala com a Petrobras agonizam tentando escapar ou da justiça ou da falência ou de ambas.  Muitos têm criticado Sérgio Moro por estar causando danos irreparáveis a este setor da economia brasileira, mas isto seria uma causa ou uma consequência da Lava-Jato?  Falo por conhecimento próprio que a situação é terrível, profissionais bem qualificados e dedicados vislumbram o desemprego, se já não estiverem desempregados, e não conseguem enxergar qualquer porto seguro para atracar.  E não adianta nem cursar o Pronatec pois este está sem verba no momento!  Porém desde que comecei a trabalhar nesta área de projetos, sempre indaguei até onde poderíamos sobreviver neste “Petrocentrismo”.

Desde sempre, se considera como um mandamento divino que a Petrobras é um patrimônio do povo brasileiro.  Qualquer argumentação contra este mandamento e hordas de fanáticos hidrófobos acusam estes hereges de traição à pátria e de serem mancomunados do imperialismo americano.  Esta era uma visão em que a própria Petrobras já fez questão de discordar, pois lá na década de 90 a própria em propagandas institucionais deixava claro que era uma empresa de capital aberto cujo maior acionista era o governo federal.  Então para a própria empresa, a Petrobras não era do povo brasileiro e sim dos acionistas.  Até onde eu sei, alguém se torna acionista de uma empresa para ganhar dinheiro e não para fazer filantropia.

E aí reside o maior dos problemas da Petrobras, pois nem sempre é do interesse do acionista majoritário o lucro da empresa.  Nas administrações lulopetistas, a Petrobras claramente serviu a outros propósitos como o de alavancar setores da economia brasileiro que há muito tempos estavam estagnados.  Para aqueles que lembram da década de 80, a Lei da Informática serve de aviso que este tipo de incentivo é fadado a termos produtos e serviços dignos da qualidade dos finados CP 500 e TK 2000.  Foram criadas as empresas satélites do Petrocentrismo.

Nunca levei a sério a missão de uma empresa, sempre me deu a impressão que isto é frase pronta de algum “marqueteiro” que é pago mais dinheiro do que merece, mas a missão da Petrobras é “Atuar na indústria de petróleo e gás de forma ética, segura e rentável, com responsabilidade social e ambiental, fornecendo produtos adequados às necessidades dos clientes e contribuindo para o desenvolvimento do Brasil e dos países onde atua.”  Creio que a parte de “desenvolvimento do Brasil” tenha sido extrapolada pelas últimas administrações.

Como acionista minoritário, ênfase no minoritário, a Petrobras ao meu ver tem que extrair e refinar petróleo e vender os derivados de petróleo.  E só!  Mas sob a visão de Lula, a Petrobras passou a ter outras funções e veio a política de conteúdo nacional.  Entre 2005 e 2007, observei que as empresas de engenharia, prestadoras de serviço da Petrobras, não sabiam nem aonde contratar engenheiros no Brasil, eram selecionados sem critério qualquer um que tivesse um diploma de engenharia, mesmo que nunca tivessem atuado na área de projetos.  Imagino que outros prestadores de serviço e fornecedores tenham feito o mesmo.  Isso sem contar que a Petrobras foi usada para ressuscitar nossa indústria naval, mesmo que esta oferecesse produtos muito mais caros que os disponíveis no mercado globalizado.  Há realmente de se reconhecer que isto alavancou a carreira de muitos profissionais subutilizados no Brasil, mas esta solução “trivial” para os problemas extra-Petrobras tinha um custo que só foi se tornar claro mais tarde.

Aditivos contratuais eram concedidos aos satélites do Petrocentrismo a rodo.  Não era um objetivo primordial destes satélites de entregar um produto de qualidade mas sim de se fazer lobby para conseguir mais negócios com a Petrobras, que parecia muitas vezes um banco de investimentos – a fundo perdido!

Veio então a proclamação da auto-suficiência do petróleo e que com o pré-sal o Brasil seria um exportador de petróleo, isso lá nos idos de 2006.  Na época pré-Grande Recessão de 2008, tínhamos a impressão que finalmente as teorias de Thomas Malthus vingariam e os recursos naturais seriam cada vez mais escassos e valiosos.  Quem trabalhou em uma empresa de projetos de engenharia nesta época sabia que a demanda por mão de obra era enorme, engenheiros eram designados a mais de um projeto simultaneamente, e quase todos para a Petrobras.  Será que faltou visão naquela época que a Petrobras não poderia se expandir naquela velocidade para sempre?  E uma coisas sempre me preocupou, pois empresas que contratam sem critério são empresas que demitem sem critério.

Na euforia, faltou a visão que outros setores da economia estavam estagnados e o país, pelo menos o governo, tinha abandonado investimentos em uma matriz energética diversificada.  E os investimentos em infra-estrutura (PAC?) eram muito insuficientes para se atacar o problema do Custo Brasil.  O Petrocentrismo sempre foi e será um erro estratégico desse e de qualquer outro país.  Alguém pode me dizer qual o membro da OPEP que nós devemos se espelhar?  A companheirada se espelha na Venezuela...

E eis que em 2008, o mundo financeiro quase veio abaixo, a primeira “marolinha” que atingiu os satélites do Petrocentrismo foi relativamente fraca, mas contratos para novos projetos foram reduzidos, o que significava que a onda maior chegaria a nossas praias depois.  Em 2009, veio o esperado baque e houveram as demissões, mas logo em 2010 muitos dos que foram demitidos conseguiram se reposicionar no mercado.  O que poucos perceberam era que o tsunami ainda estaria para chegar.

Para mascarar a incompetência do governo Dilma, a Petrobras foi usada para conter sem sucesso a inflação.  O represamento do preço da gasolina serviu, além de minar a capacidade de investimento da Petrobras, para turbinar a onda gigante que atingiu em cheio o setor em 2014.  As atividades petrocêntricas já estavam desacelerando há algum tempo e os satélites do Petrocentrismo que não cortaram, começaram a segurar em seus quadros funcionários ociosos.  Também, o setor sucroalcooleiro foi duramente atingido por esta política suicida do acionista majoritário da Petrobras.  Este é um setor que poderia estar se expandindo resultando em demandas por serviços de engenharia, construção, e bem como compra de equipamentos.

Qualquer acionista por definição deve tomar atitudes gerenciais para garantir o lucro da empresa e a capacidade de investimento, ainda mais diante de um cenário em que a demanda por combustível estava aumentando.  A atitude do governo de Dilma, na capacidade de acionista majoritário, é por definição criminosa.  Quem foi inteligente o suficiente, vendeu as ações da Petrobras logo que George Soros abandonou o barco.  Era o alerta que a coisa ia piorar rápido.

Pois bem, toda essa conjuntura mal tocou no principal problema da Petrobras: a corrupção.  A ganância desenfreada dos saqueadores tirou o dinheiro que deveria ser investido em novos projetos, afetando, além dos satélites petrocêntricos, os clientes que são a população brasileira que compra gasolina e os acionistas.  Os únicos que não são afetados são os funcionários, pois estes possuem estabilidade de facto na empresa.  Longe de querer que trabalhadores percam seu emprego, mas claramente a Petrobras tem seus quadros inchados, tanto que recentemente procurou fazer um programa de demissão voluntária.

Então que culpa tem o Sérgio Moro nesta estória?  A de exigir que o contribuinte, que vai arcar de uma forma ou outra os abacaxis da empresa, tenha justiça?  A de exigir que o acionista possa ter seus direitos respeitados?  Ou será que o acionista é a elite branca burguesa que paga propina ao guarda de trânsito e então tem que ser esfolada?  A política de uso da Petrobras para outras finalidades que não a de produzir derivados de petróleo causou o aparelhamento da empresa por indivíduos mais preocupados com ideologia do que com a empresa, que geraram corrupção e ineficiência, que por sua vez causou a derrocada da Petrobras.  E esta é a causa de todas as empresas de engenharia, empreiteiras, fornecedores de equipamentos e outras estarem passando o pires.  E sim, nós engenheiros estaremos de volta a vender suco.  Simplesmente lastimável.