terça-feira, 19 de abril de 2016

E Agora Michel?


Aleluia!  Demorou, mas finalmente foi dado o primeiro passo concreto para se apear do poder o PT retirando seu membro mais inepto, Dilma Rousseff, da posição onde o maior dano poderia ser causado.  Tudo indica que o Brasil vá ser comandado nos próximos anos por Michel Temer.  Não adianta espernear dizendo que ele não recebeu nenhum voto para presidente, pois Itamar Franco, Jango Goulart e outros também não receberam, mas assumiram o posto por terem sido eleitos vice-presidentes.  O brasileiro tem de ter mais critério para eleger presidentes e também mais atenção em quem está votando para vice-presidente, pois há sempre a chance deste vir a assumir o cargo de presidência.

Discussões à parte, Temer deve assumir em algumas semanas a presidência, a não ser que o Senado resolva recolocar o país em estado de convulsão não admitindo a denúncia aprovada na Câmara.  E então vem a pergunta que os brasileiros deveriam estar fazendo: e agora Michel, o que vais fazer?  Tirando os petistas de carteirinha, não havia dúvida que Dilma estava cavando um poço mais fundo para atolar o país, mas será que Temer sabe o que fazer para nos tirar do poço?  Quais as medidas que devem ser tomadas de imediato e no médio prazo para que possamos respirar e termos esperança?

Primeiro, o Brasil precisa mostrar para o mundo que é um país sério e que tem profundo respeito pela democracia.  É claro que parte da imprensa estrangeira, desprovida da mínima coerência e diligência, ou simplesmente por má fé mesmo, acredita que os motivos para o afastamento de Dilma são frágeis e que o que houve é um quase golpe.  É necessário escancarar as atrocidades fiscais cometidas nestes 5 anos de Dilma e pelo menos indicar que o Poder Executivo vai se comprometer em respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, algo que o mercado financeiro e as agências de risco vão estar de olho.  E claro, esse comprometimento é necessário para que os contribuintes não tenham que ver sua renda diminuída por mais impostos ou inflação.  Não vai ser nada fácil.

De qualquer maneira, o novo governo deve mostrar um alinhamento com as mais sólidas democracias e se afastar de ditaduras e protoditaduras.  Mais claramente, adotar uma postura de distância de Cuba e Venezuela enquanto estes países mantiverem regimes de supressão de liberdades individuais.  A proximidade obscena do PT com Castro, Chávez, Maduro entre outros, além de repugnante, sempre me fez indagar se Lula e amigos queriam implantar no Brasil regimes semelhantes.  Ter conversas mais estreitas com países como EUA, os da Comunidade Europeia, Japão e outros não só demonstra uma postura diferente como permitirá uma possibilidade de se abrir canais de comércio com nações ricas no futuro, algo que empresários sérios nesse país desejam para ampliar seus negócios, gerar mais riquezas e empregos.

Também de imediato, Temer pode reduzir drasticamente os gastos com o “Bolsa Companheiro”, que é talvez um dos maiores sorvedouros de recursos do Brasil.  O governo do PT tem cerca de 20 mil cargos distribuídos para funcionários não concursados.  Conhecendo a qualidade do governo de Dilma e o caráter dos altos dirigentes do PT, creio que a maioria desses funcionários deve ser composta por parasitas que além de não fazerem nada de útil, atrapalham o bom funcionamento das instituições.  Isso sem contar a dinheirama que é despendida com os “movimentos sociais”, sindicatos e similares como CUT, UNE, MST, etc.  Uma auditoria de quanto dinheiro foi gasto com essas pragas e como foi gasto este dinheiro seria desejável, mas se pararem de gastar com estes já ajudará em muito o resto do país.

Depois disso, as coisas se complicam e bastante.  Temer e seu partido nunca me passaram a impressão de serem discípulos de uma administração da coisa pública eficiente, correta e responsável, aliás, a impressão que tenho do PMDB é bem oposta.  O PT passou anos aparelhando, inchando e sucateando a administração pública e está na hora de um choque de competência para que essa combalida administração pública comece a fazer bem para o país ao invés de travar o nosso crescimento e infernizar nossa vida.

O país tem leis ou arcaicas ou absurdas que dificultam a economia e a geração de empregos.  A nossa legislação trabalhista é cheia de “direitos trabalhistas” que fazem que qualquer empregador sensato pense bastante antes de contratar alguém que implicitamente terá uma miríade de benefícios sem necessariamente em contrapartida ter de mostrar um desempenho no emprego.  A nossa previdência está quebrando, se já não estiver quebrada, mas todos os brasileiros querem ganhar muito quando aposentados e gastar pouco para contribuir antes da aposentadoria.  O nosso sistema tributário parece ter sido escrito pelo próprio Franz Kafka, não só se gasta um absurdo de impostos como também se perde muito tempo pagando impostos.  Reformas trabalhistas, previdenciárias e tributárias são urgentes, mas não vejo os velhacos que infestam o PMDB tendo essas reformas como objetivo.  Se Temer não cogitar essas reformas, dificilmente o Brasil poderá alçar voos mais altos que aqueles de uma galinha.

A nossa infra-estrutura está sucateada graças às ideologias burras do petismo, bem como a sanha de poder meter a mão no dinheiro público, e precisamos modernizar estradas, ferrovias, aeroportos, portos, etc.  Relançar PACs ou algo similar seria no mínimo deprimente. O país não tem dinheiro, então que os recursos para esta modernização sejam originários do setor privado.  Se Temer for adepto da retórica nacionalista míope, podemos esperar que as previsões do filme “De Volta para o Futuro – Parte 2” se concretizem e que em breve não precisemos de estradas ou de usinas elétricas.  Acho improvável...

E por último, mas igualmente importante, um combate implacável à corrupção endêmica do país.  O governo brasileiro precisa ser menor e mais transparente.  Os gastos públicos devem ser menores e precisam ser informados ao público.  O PT torra a nossa grana com hospedagem em hotéis caros, aluguéis de limusines, voos de primeira classe e esconde esses gastos do público.  É simplesmente inaceitável.  Apesar do PMDB não ser nenhum campeão de lisura, fica a esperança que Temer implemente os mínimos mecanismos para o escrutínio de como nossos impostos são gastos.

Estes são alguns dos pontos que Michel Temer e seu novo governo devem abordar nos primeiros momentos.  Há muitos outros como redução do número de ministérios, retomada das privatizações, independência do Banco Central, que também são igualmente necessários e importantes.  O novo governo deve levar a crise a sério, saber articular uma união entre os partidos que se opuseram à Dilma e tentar colocar de novo o país no eixo.  Pior do que não sairmos da crise nos próximos anos, é termos de cogitar a possibilidade de ter alguém eleito em 2018 que nos coloque de novo no fundo do poço.  Michel, não nos desaponte!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Como Chegamos Até Aqui?



Recentemente, o americano Mark Manson fez um razoável sucesso e barulho nas redes sociais ao publicar uma carta aberta aos brasileiros relatando no seu entendimento o porquê da antiga Terra de Santa Cruz não dar certo e de nossas tentativas de vôos de águia se transformarem em de galinha.  Lista entre os problemas de nós brasileiros o desrespeito às regras e a complacência com aqueles que desrespeitam as regras, e também cita até a vaidade como um desses problemas, uma vez que nós brasileiros gastamos nossos recursos e tempo em adquirir bens caros sem necessidade.  Realmente, esse último item é verdadeiro, pois nos EUA por preços muito mais acessíveis podemos comprar estes mesmos bens desnecessários.  Pode-se rebater os argumentos de Manson, mas no fundo sabemos que muito do que ele escreveu é verdade apesar de suas conclusões serem um pouco exageradas e incompletas ao meu ver.

À medida que as páginas policiais ditam o rumo de nossa política e economia, o Brasil tem se unido para apear do poder a quadrilha que lá se instalou e tirar a economia do fundo do poço.  Aliás, este é um poço que Dilma insiste em cavar para nos afundar mais ainda.  É provável que consigamos expurgar a encarnação viva da incompetência que habita o Palácio da Alvorada, e que isso traga um alívio momentâneo para nossa combalida economia resultando em maior geração de empregos, menos inflação e menor recessão, mas o que impede de nós continuarmos aumentando este poço?  Para responder isto, o brasileiro deve tentar entender como chegamos até aqui.

Manson afirma que toleramos a desonestidade alheia e endêmica desta terra, o que poderia explicar o porquê de tantos políticos serem corruptos.  Embora políticos corruptos não sejam exclusividade do país, aqui temos uma categoria de políticos corruptos resilientes de fazer inveja a qualquer outro país.  Renan Calheiros e Paulo Maluf são provas vivas que de norte a sul deste país meter a mão no dinheiro público com frequência não resulta em punições eficazes da justiça e nem em reprovação pública.  Porém, nada se compara a reeleição de Lula em 2006 após o escândalo do Mensalão.  Isto é uma mácula na história brasileira no qual o povo brasileiro não pode culpar ninguém mais além de si próprio.  Usando de uma lógica que alternava entre a ignorância consciente e o mais puro cinismo, o eleitorado brasileiro não condenou nas urnas Lula.  A aprovação de um político complacente, para não dizer participante, com um escândalo de corrupção daquela magnitude foi o sinal verde para que a administração do PT avançasse mais ainda encima do patrimônio brasileiro.  Mas mesmo assim a opinião pública aprovou e celebrou a condenação dos demais envolvidos no Mensalão numa demonstração de incoerência.

Lula é dotado de uma esperteza incomum e um carisma singular, o que infelizmente ele usou para eleger Dilma em 2010.  Esta é uma pessoa com um carisma de um morcego e uma liderança de um rinoceronte.  E mesmo com a economia desandando, o brasileiro decidiu reeleger Dilma em 2014.  Como?  As promessas de campanha de Dilma eram tão absurdas que uma análise simples mostrava que o país estava na beira do precipício.  Será que o brasileiro é tão crédulo assim para acreditar em um populismo do mais rasteiro possível?

Aí entra minha percepção dos verdadeiros problemas do Brasil.  Somos um povo que acreditamos em milagres, principalmente se eles vierem do governo.  Esse é para nós uma entidade mística que do éter pode transformar pobreza em riqueza.  Se não faz isso é porque se interessa em defender os interesses dos ricos.  E é claro, no Brasil acredita-se que a pobreza é resultante da exploração dos pobres pelos ricos.   Enquanto um empresário que gera negócios e empregos for visto como um explorador da massa operária, o país estará condenado à estagnação.  Afinal qual o investidor vai querer abrir um negócio, com risco de ser associado a um vilão?  Mais fácil ser especulador ou investir em negócios em outro lugar.  O PT soube e sabe explorar essa percepção equivocada, resultando em vitórias eleitorais.  A inépcia crônica e vergonhosa da oposição fez com que até a reeleição de Dilma o PT fosse o partido dos pobres e os outros demais os partidos dos ricos exploradores.

Mas o que é chocante é que a percepção equivocada da situação não foi exclusiva da população mais pobre e humilde, ela foi compartilhada por uma considerável parcela de pessoas mais instruídas.  E até mesmo pelo mercado financeiro, afinal foi após o Mensalão, em 2008, que a bolsa atingiu 72 mil pontos, patamar jamais repetido, ganhamos grau de investimento, mostrando como as agências de risco são pouco confiáveis, o dólar atingiu um patamar de quase R$1,55, mostrando que até o estrangeiro é equivocado, e a The Economist mostrou o Brasil decolando.  É claro que o mercado financeiro e a The Economist em 2014 tinham revisto por completo a opinião da administração petista, mas isso demonstra como na teoria instituições mais esclarecidas são capazes de menosprezar o efeito nocivo de políticas populistas comandadas por pessoas e organizações com objetivos escusos.

A euforia que assolou o país durante o governo Lula cegou os lúcidos, resultando na nossa incapacidade de reconhecer que era insustentável a manutenção da verdadeira farra promovida então.  Quando se demos conta que beirávamos o precipício, faltou a oposição ser mais incisiva e altiva para minar a campanha de Dilma em 2014.  A vitória dela foi apertada, mas ela ocorreu para a mais completa desgraça brasileira.


Agora o Brasil luta para não sucumbir à tempestade que nos assola, luta para o país não regredir quase 30 anos em termos econômicos e luta para que os corruptos de plantão tenham a punição merecida.  Quando Collor foi destituído em 1992, lutávamos pelas mesmas coisas e em 10 anos colocamos um dos políticos mais corruptos e nefastos no poder.  O PT alega que a corrupção é uma senhora antiga.  Na verdade, o PT não inventou a corrupção, mas ele é fruto de nossa permissividade com práticas pouco éticas com a coisa pública.  Esse é um momento de reflexão que o país deve passar por, para que nunca mais façamos o mesmo erro.  Para isso é necessário admitir que o povo brasileiro errou e identificar o que temos de mudar.

domingo, 31 de janeiro de 2016

O Paradoxo Inuit



O jovem americano Christopher McCandless em 1990 resolveu largar sua vida de recém-formado em história e antropologia, suas possessões e sua família para trás e se aventurar pelos EUA afora como um nômade vivendo uma vida “mais simples”.  Seu objetivo era adentrar a natureza selvagem no Alaska, onde veio a falecer sozinho em 1992.  Para quem viu o comovente filme de Sean Penn, Na Natureza Selvagem, a estória de McCandless é familiar.  O que o filme retratou incorretamente foi a maneira que McCandless morreu, pois enquanto o filme mostrou que McCandless morreu ao ingerir alimentos venenosos, as autoridades concluíram que McCandless morreu de inanição.  Independente de qual versão se acredita, McCandless pagou um preço pelo seu despreparo e evidente desconhecimento de como sobreviver em um ambiente mais inóspito que aqueles em que vivemos.

Apesar de alguns poderem imaginar por desconhecimento geográfico que McCandless morreu próximo ao Polo Norte, na verdade ele faleceu no coração do Alaska, no Denali, ainda longe do Círculo Polar Ártico e ainda mais longe do Oceano Ártico.  Se McCandless encontrou dificuldades em uma área ainda não tão inóspita, imaginem como é a vida daqueles que sobrevivem nos confins do mundo, no litoral do Oceano Ártico.  Não falo dos estabelecimentos como Barrow no Alaska que apesar de ser no litoral do Ártico, é abastecida com produtos de áreas mais habitáveis, e sim dos inuítes, ou esquimós, que sempre viveram ali.  Apesar dos Yupiks não serem Inuítes, o termo Inuit é o aceito perante os aborígenes do Alaska, norte do Canadá e Groenlândia, pois estes consideram Esquimó um termo pejorativo.  A vida dos inuítes é realmente mais simples na teoria, apesar de seus costumes, não tem que se preocupar com que carreira irão seguir, contas bancárias, declaração de imposto de renda, parcelas do carro em atraso, reuniões de condomínio, etc.  As únicas preocupações é sobreviver caçando focas, raposas e outros animais, evitar morrer de frio no inverno (e até no verão) e se reproduzirem, é claro, para manter a continuidade da espécie.  Alguns inuítes mais idosos preferem o suicídio a se tornarem um estorvo para as famílias.  A vida é bem mais simples para estas comunidades, mas é muito mais dura.

Uma comunidade inuit isolada da sociedade é talvez o mais próximo que se possa chegar de um socialismo utópico.  Não há acúmulo de riquezas, e mesmo que algum inuit consiga carregar uma quantidade absurda de peles de raposas e outras quinquilharias, estas terão uma liquidez limitada na “economia inuit”.  Todos devem trabalhar em prol da reduzida comunidade, e existem líderes para colocar um mínimo de organização e foco nas atividades inuítes.  Pobreza e miséria ocorrem quando a comunidade é incapaz de encontrar alimentos.  As crianças inuítes tem como aspiração se tornarem grandes caçadores ou se conformarem em realizar as necessárias tarefas domésticas.  Não há espaço para improdutividade em uma comunidade inuit, pois isso pode significar não haver alimento para sobrevivência no dia seguinte, portanto não existem inuítes acomodados sem trabalhar recebendo  benefícios do governo.

A nossa sociedade, incluindo a brasileira, avançou consideravelmente desde o início da História, permitindo que a produção de alimentos seja mais farta e que não demande, na maioria das vezes, tanto do nosso tempo.  Essa fartura permitiu que pudéssemos nos concentrar em outros aspectos da nossa vida, como nossa saúde (na teoria pelo menos), educação para nós mesmos e nossos filhos, incrementar o conforto de nossos lares, e até mesmo em lazer.  As nossas sagradas férias são comuns, mas imagino que para um inuit ter férias tem que ter caçado uma baleia, para o desespero dos ambientalistas, para poder ter um mês de alimento pelo menos.  O que impressiona na nossa sociedade é a complexidade das atividades que são requeridas para que possamos produzir esta quantidade de alimentos, além dos outros bens e serviços que consumimos.  Enquanto a complexidade da atividade econômica inuit é encontrar os alimentos, a nossa chega ao nível de modificar o DNA destes, para o desespero dos “eco-chatos”, e realizar previsões metereológicas mais precisas para antever os eventuais contratempos da natureza selvagem, que continua a nos incomodar.  Um único inuit pode ser capaz de cuidar de toda a atividade econômica da comunidade, enquanto que nós só seremos capazes de cuidar de uma parcela reduzida da atividade da nossa sociedade.  Às vezes nações inteiras são incapazes de suprir todas as necessidades de sua população e precisam importar bens.

A complexidade da atividade econômica cada vez mais requer uma maior capacitação da força de trabalho, conhecimentos mais específicos e uma versatilidade que vai além da capacidade de vários profissionais.  A impressão que tenho é que no futuro, existirão profissões que demandarão uma formação que um indivíduo só poderá atingir quando tiver 40 anos, mas é claro que o departamento de RH da empresa almejará um jovem de 22 anos, ou menos, com toda essa capacidade.  Para aqueles que de repente percebem que suas proficiências não estão mais em alta no mercado de trabalho, pois a atividade econômica apesar de não ser um ser vivo é orgânica e mutável, fica o desafio de desenvolver novas proficiências para se adequar às demandas.  É similar a uma comunidade inuit descobrir que as focas desapareceram dos arredores e terem de procurar a vários quilômetros de distância outras focas ou outro animal que possa servir de alimento.  Apesar de termos muitas mais demandas de profissões diferentes, muitos de nós por falta de capacitação, por preconceito do mercado de trabalho estamos condenados a tantas oportunidades profissionais como aquelas disponíveis para os inuítes.

Sim, mesmo nos dias de hoje há miséria e escassez de alimentos em alguns lugares.  Mas apesar disso, enquanto podemos consumir mais de 3000 calorias em um dia, para o desespero dos nutricionistas de plantão, enquanto um inuit consumirá isso se esbaldar na carne mais gordurosa de uma obesa foca.  Hoje em dia, aqui no Brasil podemos comprar salmão na feira, algo impensável antes do Chile criar este peixe em suas fazendas, pois importar esse peixe era somente para os mais abastados.  Isso é um exemplo de como a oferta de alimentos é diversificada a preços acessíveis ao longo dos anos.  Outros produtos são barateados ao longo dos anos graças ao avanço tecnológico e também à maior capacitação dos profissionais envolvidos na cadeia produtiva, inclusive a de serviços mais complexos.

Nações que se aventuraram pelo socialismo encontraram o fracasso retumbante justamente pela essência equivocada deste modelo que julga que é possível domar e entender a complexidade da atividade econômica e das necessidades do mercado de trabalho.  É claro que essa crescente complexidade vem a criar um desafio enorme para as nações diante da exigência de um capital humano cada vez mais aprimorado, sendo que aquelas que tiverem o melhor capital humano se sobressairão em um possível detrimento de outras.

Muitos inuítes estão sendo assimilados pelas sociedades americanas (no Alaska), canadenses e dinamarquesas (na Groenlândia).  Ao executarem tarefas com um mínimo de complexidade, são capazes de acumular riquezas, pelo menos muito mais que em comunidades isoladas e nômades, para que possam comprar alimentos sem ter que caçá-los.  Se estes inuítes forem sensatos o suficiente, poderão até acumular riquezas para adquirirem alguns dos bens e serviços que estas sociedades norte-americanas disponibilizam a seus cidadãos.

O paradoxo inuit é que a ciência e a maior capacitação do ser humano nos proporcionam muito mais que o isolamento e o estilo nômade podem oferecer, mas mesmo assim muitos de nós não se adequamos às mudanças do mercado de trabalho, com o agravante que muitas vezes não somos nem adequados para as tarefas mais simples.  Afinal quantos de nós conseguiríamos sobreviver 1 ano ao norte do Círculo Polar Ártico?  Não saberíamos caçar focas, fazer casacos de pele de raposas e o mais provável que seríamos comida de urso polar.  O progresso de nossa sociedade nos tornou inábeis para algumas tarefas primordiais essenciais.  Christopher McCandless mostra que não estamos nenhum pouco preparados para um retorno à Natureza Selvagem.  Por mais tentador que seja nos livrar de todos os problemas que temos, somos dependentes do supermercado, do seguro médico, do posto de gasolina, entre outros serviços disponibilizados pela nossa sociedade moderna.  Mesmo que venhamos a se mudar para o "meio do mato".


sábado, 23 de janeiro de 2016

De Edirne à Colônia


Os 2.170 km que separam as cidades de Colônia na Alemanha e Edirne na Turquia podem ser percorridos em cerca de 21 horas passando por outros 6 países.  Ambas cidades foram fundadas pelos romanos na antiguidade, mas outra coincidência pode ser traçada entre as duas por incidentes envolvendo imigrantes.  Colônia recentemente foi marcada, na última Véspera de Ano Novo, pela onda de ataques sexuais a cerca de 100 mulheres locais por grupos formados por refugiados da Síria e imigrantes ilegais, pelo menos os que foram identificados pela polícia local pertenciam a estas categorias.  Este foi um episódio marcante que chocou a Europa e também a opinião global e que tem várias similaridades com a histórica Batalha de Adrianópolis travada no ano de 378 DC.

No século IV, os bárbaros começaram a ser cada vez mais incômodos ao Império Romano, que já havia se dividido em dois.  Os constantes embates com os romanos na fronteira dos dois impérios erodiriam a integridade da nação mais poderosa da Idade Antiga.  Entretanto, os bárbaros passavam longe de ser uma comunidade unida e amistosa entre si.  Os temidos Hunos avançavam da Ásia para o Leste Europeu obrigando os povos desta região a se deslocar para outras áreas, entre eles os Godos que começaram a emigrar para dentro do território romano, em específico ao sul do Rio Danúbio nos Balcãs.  A motivação dos godos era em parte semelhante à dos sírios fugindo do terror praticado pelo Estado Islâmico em suas terras.

Inicialmente, o movimento migratório iniciado em 376 era satisfatório para ambas as partes, os godos poderiam obter refúgio dos hunos em território romano e os romanos compensariam o seu encolhimento demográfico usando os godos para se tornarem soldados, fazendeiros e trabalhadores necessários para reerguer a decadente economia do império.  Mas o tratamento injusto dispensado pelas autoridades romanas locais aos godos rapidamente colocou os dois povos em pé de guerra.  Os romanos subestimaram a quantidade de refugiados godos que atravessaram o Danúbio e não tinham comida suficiente para alimentá-los.  Para piorar, os governadores locais começaram a cobrar preços exorbitantes pelos alimentos, forçando os godos a até venderem suas crianças como escravos.  Enquanto os romanos deslocavam suas tropas para confrontos com os iranianos, um novo inimigo surgia no coração do império, que menosprezou a capacidade de organização dos imigrantes e também a capacidade militar destes.

Temendo pela agressividade dos godos, que se rebelaram e começaram a saquear cidades romanas, o imperador romano oriental Valente chamou de volta suas tropas no Oriente Médio e pediu ajuda à sua contraparte ocidental, seu sobrinho Graciano, que enviou reforços para lidar com as crescentes hostilidades.  Graciano havia obtido vitórias contra tropas bárbaras no oeste europeu o que causou inveja em Valente.  Em 6 de agosto de 378, ainda sem os reforços ocidentais, Valente foi informado de uma tropa de godos se aproximando da cidade de Adrianópolis, atual Edirne.  Movido pela tentação de obter uma vitória contra os godos sem o auxílio de Graciano, Valente resolveu atacar os godos, que eram comandados por Fritigern, um líder godo que os romanos já tentaram assassinar anteriormente.  O que Valente não contava era que a informação do número de godos era incorreta, na verdade as tropas de Fritigern eram mais numerosas que o informado.  O líder godo ainda tentou um acordo com os romanos, mas Valente apesar de conselhos para esperar os reforços rejeitou o acordo e marchou para o combate.  Após várias horas de caminhada, as tropas romanas chegaram aos arredores de Adrianópolis exauridas debaixo de um sol castigador e contra uma tropa mais numerosa e muito mais bem equipada que se imaginava, e bem descansada.  O massacre era um resultado mais do que previsível diante de tanta prepotência e falta de preparo por parte dos romanos.  O imperador Valente foi morto, as tropas foram dizimadas, sem contar que os godos incapacitaram a produção de armas pelos romanos por um bom tempo naquela região.   Os godos com tropas reforçadas até mesmo com hunos continuaram atacando cidades do império apesar de não conseguirem vitórias contra as principais fortificações romanas.  Um acordo entre os povos beligerantes foi obtido posteriormente em 382, no qual os godos obtiveram vantagens importantes como novos “cidadãos” romanos.  Em 410, os visigodos saquearam Roma, em mais um passo para o declínio do império, um resultado do fracasso completo da estratégia de incorporar uma população estrangeira à nação romana.

Movimentos migratórios sempre existiram e continuarão existindo, nações foram formadas graças a estes, a cultura de um país pode se beneficiar em muito, isso sem contar que muitas vezes imigrantes contribuem significativamente para a força de trabalho do país.  O Brasil se beneficiou e muito dos movimentos migratórios ao longo dos séculos.  Hoje, o país possui uma cultura diversificada e rica graças a estes imigrantes.  A imigração é benéfica quando ela adiciona à nação, quando as gerações de imigrantes são assimiladas dentro da população local.  Mas se a imigração cria “uma nação dentro de uma nação”, os problemas surgirão como a história do Império Romano nos ensina.

Muito se mudou, para melhor, entre 376 até os dias atuais.  Hoje seria impensável, ainda bem, imigrantes vendendo crianças como escravas, mas a falta de preparo das autoridades da nação que recebe os imigrantes não mudou muito para o espanto geral.  Como os godos, os refugiados sírios chegaram à Europa em número maior que se previa e sem um planejamento adequado para estes serem absorvidos pelo mercado de trabalho local.  Em grandes números, os imigrantes tendem a se isolar da população local.  Xenofobia e discriminação não resolvem e até agravam, em algumas vezes, o problema.  Aliás, genocídios são iniciados a partir de preconceito como a história nos ensina.  Mas achar que os problemas de discriminação serão resolvidos só com boas intenções é ignorar as possíveis consequências de uma imigração maciça e desordeira.

Os romanos queriam soldados, enquanto a comunidade europeia procura profissionais com um certo grau de qualificação.  Muito se fala que os refugiados sírios possuem alto grau de instrução e podem trabalhar em empregos para o qual o encolhimento demográfico da Europa subtraiu profissionais.  Não duvido que hajam sírios bem formados e competentes, agora achar que a maioria da população tem essa capacidade é exageradamente otimista ao meu ver, ainda mais para um país com uma posição tão medíocre no índice de educação da ONU.  O resultado é que um mercado de trabalho exigente como o europeu não tem vagas para tantos refugiados, que vão acabar se ocupando de tarefas menos qualificadas que os europeus não gostam de realizar, isso se estas estiverem disponíveis.  A barreira da língua é outra que atrapalha e isola os imigrantes, dificultando a integração destes com a população local.  Mas a barreira cultural é o maior problema, ainda mais vindo de uma região onde os direitos das mulheres e a liberdade religiosa são pouco respeitados.  Qualquer concessão nesses pontos por parte dos europeus devido a “diferenças culturais” é inaceitável.  Os padrões de sufrágio, liberdade e direitos existentes nas nações desenvolvidas são aqueles que os imigrantes devem se adequar e não vice-versa.  O império da lei não pode ser alterado.


Os ataques às mulheres em Colônia mostram que há um conflito étnico existente em progresso e uma evidente subestimação do problema pelos europeus.  Como Valente em 378, a polícia local de Colônia não quis reforços e perdeu o controle da situação.  A postura “paz e amor” dos governos europeus não é eficaz e atiçará ainda mais a extrema direita, que é por definição xenófoba.  Não há solução fácil e nem evidente para este problema, sendo que este ainda pode se agravar.  E os ataques terroristas em Paris mostram que os bárbaros já cruzaram o Danúbio há muito tempo.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Direitos e Deveres de Martin Shkreli



O “Hitler dos remédios” foi um dos vários apelidos que o especulador americano Martin Shkreli, CEO da Turing Pharmaceuticals, ganhou após sua notória decisão de aumentar de US$13,50 para US$750,00 o preço do comprimido do medicamento Daraprim em junho de 2015, após comprar os direitos relativos a este dos Laboratórios Impax.  A medida repentina afetou severamente aqueles que dependiam do medicamento para combate de doenças como malária e toxoplasmose, no caso da última uma infecção oportunista comum em pacientes com AIDS.  Além de receber inúmeras críticas de associações médicas e farmacêuticas, de políticos americanos de todo o espectro desde Hillary Clinton até Donald Trump, Shkreli obteve bem mais que os habituais 15 minutos de fama, na verdade vários meses de infâmia.  Contratou lobistas e relações públicas, mas para certas atitudes e situações, não há marketing que resolva, nem João Santana faz milagre.  Recentemente, Shkreli foi preso por acusações de fraude, não relacionadas à celeuma do Daraprim, mas independente de sua culpa ou não, quem julgá-lo vai levar em conta, mesmo que inconscientemente, a ganância desenfreada de Shkreli demonstrada.

O que Shkreli fez com os usuários do Daraprim é claramente imoral e beira a chantagem descarada mesmo, por mais que teça inúmeras explicações para justificar o aumento abusivo.  Mas fica o questionamento, até onde vai o dever de um fabricante de medicamento em fornecer a um preço justo um produto mais que necessário para uma clientela que necessita deste para sobreviver, e até onde esse dever interfere com o direito de um dono de negócio de julgar como vender seus produtos e serviços e até mesmo de interromper o fornecimento destes produtos e serviços.  Shkreli mereceu todos os apelidos que ganhou nos últimos meses, mas sob certa ótica seguiu a regra os seus direitos como empresário.  Pergunte a qualquer outro empresário se ele gosta de sofrer ingerência governamental ou popular sobre como conduz seu negócio e com certeza obterá a mesma resposta: um não categórico.

A verdade é que o empresariado tem que ao tomar essas medidas controversas ter duas coisas em mente: primeiro esse tipo de medida é no mínimo antipática e deve ser evitada para se poupar o próprio empresário, e segundo que a longo prazo esse tipo de medida é pouco inteligente, para não dizer burra, pois apesar dos ganhos imediatos instiga a sociedade e o mercado a procurarem alternativas.  Publicidade negativa atrapalha e pode até castigar um negócio severamente, mas algumas vezes tem um efeito limitado.  Lembro quando a Microsoft era considerada uma corporação nociva por estar destruindo a concorrência com práticas abusivas, algo com bastante fundamento aliás, porém poucos ousavam em não usar o Word e o Excel para não incorrerem no risco de criar problemas para outros usuários.  Mas o risco maior é para o empresário.  Outra vez, Shkreli vai sentir o gosto dessa publicidade negativa em seu julgamento.  Além do que esse tipo de atitude serve para atrair carreiristas políticos que gostam de explorar essas situações.  Por muito menos Eliana Tranchesi foi presa por sonegação fiscal e condenada por 94 anos e meio.  Tranchesi passou a ter um alvo pintado nas costas no momento que inaugurou seu elefante branco em São Paulo, a Daslu.  Por mais que não fosse exatamente antipática, a ostentação desnecessária é interpretada como uma afronta por vários.

Na Idade Média, enquanto o Império Bizantino definhava e o Império Otomano conquistava os territórios por onde passavam as rotas das especiarias, os reinos ocidentais procuravam rotas alternativas para se atingir a Índia.  Com a queda de Constantinopla em 1453, os otomanos impuseram tarifas altas para os mercadores, impulsionando de vez as grandes navegações, marcando assim o início da Idade Moderna.  A necessidade sempre foi e será a mãe da invenção, conforme disse Platão, e tentativas de monopolizar um determinado produto ou serviço sempre foram contornadas com a criação de alternativas.  Tanto que a Imprimis Pharmaceuticals em outubro de 2015 anunciou a fabricação de um medicamento genérico que custa US$1,00.  Shkreli deveria ter aprendido com a OPEP a sempre estabelecer os preços de acordo com o mercado, em específico para não deixar produtos alternativos se tornarem mais economicamente vantajosos.  A própria Microsoft viu seu monopólio ser derrubado nos últimos anos.

Em um país onde o livre mercado é um pilar fundamental, a atitude de Shkreli é na verdade um atentado a este pilar.  Tentar lucrar com o desespero alheio é uma justificativa para ingerência.  O bom senso deveria prevalecer nestas situações, mas infelizmente ele é de difícil regulação.  Fabricantes de medicamentos como qualquer ramo de negócios têm direito ao lucro, os pesquisadores que muitas vezes gastam décadas e a vida tentando sintetizar uma droga específica que pode vir a demorar até mais para ser aprovada para uso têm direito a não terem após seu sucesso sua patente quebrada em nome de “um bem maior” para a comunidade.  A livre concorrência é e sempre será a melhor solução para os Shkrelis da vida e seus espasmos monopólicos de curta duração.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Um Longo Caminho pela Frente



No dia 22 de novembro de 2015 os argentinos foram às urnas e elegeram o liberal Mauricio Macri como seu presidente.  Para os demais latinos americanos, em específico os brasileiros, cansados do populismo da turma do Foro de São Paulo e dos demais bolivarianos e socialistas que infestam essas bandas, a eleição de Macri foi motivo de comemoração e um alento de esperança.  É um marco que significa a derrocada do bolivarianismo e, portanto, a recolocação dos países acometidos de populistas de esquerda em um caminho virtuoso.  Muita calma nesta hora, pois o caminho que a Argentina terá de percorrer é longo e traiçoeiro.

Há 100 anos atrás, a Argentina era uma nação com renda per capita superior a de países como Itália, Dinamarca, Japão, Espanha, ocupando a notável 7ª posição neste ranking.  Mas nenhuma economia sólida é capaz de resistir a políticas populistas que no longo prazo corroem quaisquer conquistas.  Uma crescente participação do governo na economia com estatizações de setores industriais lentamente empurraram a Argentina para a medíocre 53ª posição em renda per capita.  Continuam na frente do Brasil, mas para um país que tinha esse valor 400% maior que o nosso, uma vantagem de quase 50% mostra que as coisas degringolaram muito ao sul do Rio da Prata.  Uma análise completa da decadência argentina resultaria em várias teses de doutorado extensas, passando pelos inúmeros equívocos das lideranças argentinas.  Mas o que chama atenção é que Macri é o primeiro liberal eleito lá em mais de 100 anos, mesmo que em alguns destes anos o governo tenha passado por atrozes e nocivas ditaduras militares.  Os demais eleitos foram todos populistas do naipe de Cristina Kirchner.

A conclusão que se chega é que apesar da escassez de lideranças políticas responsáveis por lá, o povo argentino abraçou o populismo barato até agora como um paradigma de boa governança.  A situação do país é crítica, a economia está emperrada, a inflação está em quase 25% ao ano pelas estimativas não-oficiais, o crédito do país está arruinado desde a moratória forçada de 2001, e para piorar a imagem junto aos investidores veio a estatização da YPF realizada em 2012, a imprensa livre foi minada por Cristina Kirchner, a justiça foi aparelhada e infiltrada por populistas, o país sofre com desabastecimento de produtos industrializados devido a inúmeras barreiras comerciais, sendo que algumas delas existem graças a uma conivência inaceitável do governo brasileiro.  O desafio de Macri é recuperar o país diante de um cenário muito difícil.  Sem crédito na praça e com uma gastança desenfreada, a Argentina precisa de recursos para crescer e mostrar que é merecedora da confiança de investidores.  A iniciativa de Macri de querer acionar a cláusula democrática contra a Venezuela no Mercosul é não só louvável como um acertado primeiro passo.

O mundo precisa perceber que o liberalismo veio para ficar na Argentina e o primeiro passo é demonstrar que o país não quer se associar com uma nação como a Venezuela que notoriamente cerca os direitos individuais mais básicos e é uma protoditadura.  Os demais passos são mais complicados.  A negociação com fundos abutres que em 2014 conseguiram na justiça americana a exigência que os títulos argentinos sejam pagos em sua totalidade é um desafio maior que a postura adotada perante a Venezuela.  Isso sem contar que qualquer país que queira migrar do socialismo ou do populismo barato para uma economia liberal precisa lidar com uma inevitável parcela da população acostumada a receber privilégios sem uma contrapartida.  Reformas liberais demoram para surtir efeitos, ainda mais em países devastados economicamente, mas afetam rapidamente aqueles acostumados a ganhar sem produzir.

No curto prazo, decisões populistas são bem sucedidas e tentadoras, mesmo que o posterior desastre seja certeiro.  Quando 48% da população vota em Daniel Scioli, candidato do kirchnerismo / peronismo / bolivarianismo, isso é uma demonstração que boa parte da população não estará muito propensa a aceitar medidas de saneamento da economia necessárias como privatização de estatais, redução de privilégios trabalhistas, corte em programas assistencialistas, etc.  O maior desafio de um país em crise não é tomar decisões amargas, é convencer a toda população que todos sem exceção terão de amargar essas decisões.  Arrisco ainda a dizer que entre os eleitores de Macri estão vários desiludidos com o kirchnerismo, mas não com o populismo.  Isso quer dizer que surgindo outro candidato populista, descolado de Cristina Kirchner, pode vir a bater de frente com Macri e reverter qualquer avanço conquistado.

Toda esta análise sobre a Argentina pode ser aplicada ao Brasil feitas algumas modificações devido a percursos históricos diferentes entre os dois países.  Mais do que nunca temos de estar atentos aos nossos vizinhos.  As dificuldades de Macri podem ser as mesmas enfrentadas por qualquer político que venha a substituir Dilma e sua agenda populista e incompetente.  A principal oposição ao PT é ainda o PSDB com sua agenda “encima do muro” e com algumas lideranças desgastadas.  Um maior desgaste a ser infligido aos tucanos aumenta a chance de um aventureiro populista vir a ascender em um cenário de devastação econômica como o enfrentado neste país.

Nunca torci pela seleção argentina, mas torço muito para que o país saia do buraco que se encontra.  É importante que isso ocorra para que o Brasil tenha em quem se espelhar para nos livrarmos das nossas pragas populistas.  Mas para tal os argentinos terão de enfrentar muitos percalços neste caminho longo.  Tomara que consigam.  E tomara que Macri realmente adote uma agenda liberal e não caia em tentação populista.


domingo, 15 de novembro de 2015

A Fortuna de um Saco de Batatas



Uma vez no escritório onde trabalhava, foi organizado um bolão para apostar na Mega-Sena que tinha o prêmio acumulado.  Nossa chefe ficou sabendo do bolão e pediu para também participar, alegou que se fosse bem sucedida a aposta, ela não queria ir trabalhar sozinha no departamento na semana seguinte.  Todos nós já devemos ter ouvido piadas, estórias ou delírios de colegas, amigos e familiares do que fazer se ganhássemos vários milhões de reais, passando por mansões, carros, viagens e até investimentos de longo prazo.  Mas não conheço ninguém que tenha falado que pretendia fazer um curso de especialização para investir na carreira, se dedicar mais ao trabalho, apesar de existirem, aliás a grande maioria gostaria no primeiro ato pedir demissão.  Alguns até pensam em abrir um negócio próprio para se ocuparem, mas uma boa parte pensa em relaxar e aproveitar.  Obviamente que não foi bem sucedida a aposta e todos os participantes foram trabalhar, minha ex-chefe inclusive.  Mas fico imaginando a cena insólita de uma segunda-feira no qual chegaria para trabalhar com o departamento vazio.  Para empresa seria um completo desastre e, dependendo da quantidade de ganhadores, até significaria uma inevitável falência.

Na obra-prima de Scott Adams, O Princípio Dilbert, o último capítulo é dedicado ao sistema concebido por Adams de OA5, em inglês Out at 5, ou seja no qual ele defendia que os funcionários saíssem às 17:00, pois longas horas de trabalho implicariam mais funcionários desmotivados e descontentes no trabalho.  Exageros à parte, afinal todo o universo do Dilbert era engraçado por ser justamente exagerado, Adams tem um ponto válido.  Nem todos nós temos motivações ou condições de nos tornarmos milionários, condição que para se chegar demanda na esmagadora maioria das vezes esforço, dedicação, diligência e sacrifício.  A motivação para se gastar horas do dia, e da vida, longe de casa, aturando algumas vezes superiores intragáveis é que receberemos um salário não-milionário, apesar do esforço, dedicação, diligência e sacrifício, para podermos sobreviver e até guardar algo para o futuro.  Tire a necessidade desta pessoa dispender este tempo para sobreviver e guardar algo para o futuro, e esta pessoa não terá mais essa motivação para trabalhar.  Claro, alguns realmente gostam do que fazem, não sabem o que podem fazer com o tempo livre, possuem um senso de civismo diferenciado e, portanto, trabalham por motivações diferentes.  Não devemos julgar nem aqueles que sonham em se aposentarem com o prêmio da loteria e nem aqueles que apesar de não admitirem não iriam mudar a rotina.  Mas as motivações mudariam na situação de se ganhar um prêmio polpudo.

Desde que me conheço como brasileiro, sempre ouvi que se achássemos petróleo ou outros minerais preciosos, como o nióbio (!), seríamos ricos.  Lula no auge do seu populismo bradou que tínhamos achado um bilhete de loteria premiado com pré-sal.  Sempre tive dúvida se realmente achamos este bilhete premiado, apesar da certeza que muitos do governo lulopetista acharam uma verdadeira mina na Petrobras para rapinar e pilhar durantes estes 13 anos.  Mas partindo do pressuposto que realmente ganhamos um bilhete de loteria naquela época, o que faríamos com este dinheiro?  Sempre ouvi que se achando petróleo, o povo brasileiro seria rico e membro da OPEP.  Isso significaria que todos seríamos milionários e poderíamos em tese parar de trabalhar e nos aposentar?  Que poderíamos ter um padrão de vida igual ao de países do primeiro mundo sem ter os mesmos índices de produtividade, nível de educação e consciência cívica?  Os tais dos royalties do petróleo do pré-sal foram alvo de acalorado debate no congresso brasileiro.  Mesmo sem sabermos se era economicamente viável explorar ou não esse petróleo, vários queriam participação nessa possível renda.  Estados milhares de quilômetros distantes do litoral fluminense pleiteavam parte do prêmio do suposto bilhete premiado, enquanto o governo fluminense tentava enxotar essa turma alegando que sem esse dinheiro não haveria as Olimpíadas de 2016.  Argumentos a favor e contra a distribuição dos royalties proliferam, mas pelo menos para mim ficou claro algo, se é que já não estava antes, nós os brasileiros, não só a classe política, preferimos discutir a distribuição da riqueza alheia a discutir o que realmente é necessário fazer para o país entrar nos trilhos.  Não lembro de ter visto esse tipo de empenho para se realizar reformas previdenciária, trabalhista e tributária.

É mais do que sabido que países como Japão, Finlândia, Holanda, entre alguns outros, são ricos sem terem ganho bilhetes premiados da loteria.  Alguns países membros da OPEP são também ricos, mas seus índices culturais, educacionais e até mesmo sociais são medíocres.  Basta olhar a Venezuela para se ver que petróleo não se traduz em riquezas e nem em mais justiça social.  Na verdade, enquanto um povo se ater aos princípios mercantilistas da Idade Média e Moderna, esse povo estará condenado à mediocridade.  Somente uma sociedade empenhada em gerar riquezas pelo trabalho, e enfatizo pelo trabalho qualificado, conseguirá ser próspera.  Não precisamos de uma sociedade composta por workaholics, mas sim por pessoas que acreditam que não há caminho fácil para o sucesso.  Apesar de uma esmagadora maioria desejar ser premiada na loteria, não podemos ficar sentado esperando isso acontecer.  Se o Brasil não achar petróleo, ou até nióbio, suficiente em seu território, isso não quer dizer que seremos condenados à pobreza crônica.

Lembro do clipe da música Rubão da banda Charlie Brown Jr no qual é mostrado um pobretão achando uma carteira recheada de dólares e ao invés de se investir em seu futuro, o sujeito resolve torrar em festas, carros e mulheres.  Nunca consegui descobrir se a banda quis fazer uma apologia à “virtude da pobreza”, ou ridicularizar aqueles que acham que por descobrirem um punhado de dinheiro irão ser eternamente milionários.  Mas existem muitos que sonham em ganhar uma “grana fácil” para não fazer nada, é só pesquisar e ver quantos parentes de artistas e esportistas bem sucedidos se penduram nestes.  Apesar que há alguns artistas que quando se tornaram famosos resolveram colocar todos os seus familiares para trabalhar em seus negócios, e estes foram o que mais prosperaram.  Na minha experiência de vida, dinheiro que é ganho fácil nunca tem seu valor reconhecido, e quanto menos alguns não trabalham, mais eles exigirão daqueles que trabalham.  No dia em que ficarmos todos milionários por termos achado bilhetes premiados de loteria, petróleo abundante no país ou até por termos todos parentes ricos, seremos todos miseráveis, pois ninguém vai querer trabalhar.  Se todo mundo relaxar e resolver não trabalhar mais, quem irá  produzir alimentos, vestimentas, energia, etc?  Daí vai acontecer que nem um antigo colega de trabalho meu profetizava, quem tiver um saco de batata vai ser o realmente milionário.