terça-feira, 6 de setembro de 2016

50 Tons de Flicts

O livro infantil "Flicts" do escritor Ziraldo foi editado pela primeira vez em 1969.  Descrevia os augúrios de uma cor que tentava descobrir sua identidade, até que ao final da estória se identifica com a cor do solo lunar, em suma "A Lua é Flicts!".  Na minha terceira série, há mais de 30 anos, encenamos uma peça da estória e, é claro, que como vários alunos quis ser Flicts, mas acabei com o papel do Laranja.  Nem cor primária consegui ser para minha decepção...

Naquela época, eram apenas 5 partidos, PDS, PTB, PT, PDT e PMDB, sendo que o primeiro e o último disputavam a hegemonia política brasileira, elegendo 22 dos 23 governadores na eleição de 1982.  O Brasil caminhava a passos constantes para sua redemocratização, sendo que o PDS abrigava os políticos aliados aos governantes militares e o PMDB englobava uma oposição amorfa e heterogênea, mas com amplo e crescente apoio popular.  O PT ainda não tinha a dimensão que atingiu no seu auge, mas apesar de não ser levado tão a sério, já assustava pelo radicalismo de suas propostas.  Curiosamente, o PT se aliou aos demais 4 partidos em vários momentos de seus quase 14 anos de governo, levando em conta que o PDS é o atual PP após várias mudanças de nome.  Eis a definição de fisiologismo.

Os tempos não eram fáceis no início daquela década, a inflação era altíssima, havia escândalos de mau uso de empréstimos subsidiados, o grau de endividamento da nação era exorbitante, a nossa indústria era sucateada devido ao alto grau de protecionismo e Brasília já era Brasília desde então.  Em muitos aspectos, os tempos eram tão ruins ou piores que agora.  Olhando sob esta ótica, é muito fácil se tomar pelo pessimismo, ou no mínimo pelo ceticismo quanto ao que virá pela frente.  Michel Temer apresentou um discurso no qual pelo menos faz um diagnóstico correto da atual situação e propõe atitudes contrárias àquelas de Dilma.  O problema é que Temer é cercado de políticos do pior naipe possível, alguns sobreviventes do final da ditadura e do início da redemocratização.  Basta ver que Renan Calheiros é líder do senado, tendo estado em posição de eminência no congresso há muito tempo.  O próprio Temer sempre esteve nessa posição, inclusive de aliança com governos anteriores.  O lema do PMDB parece ser "Hay gobierno soy a favor"!

Recentemente, muito se discutiu sobre as tendências de esquerda da maioria dos partidos brasileiros e de muitos congressistas.  Um post chamava o espectro partidário brasileiro, hoje em mais de 30 partidos, de "50 tons de vermelho".  É claro que há políticos presos a ideologias esquerdopáticas como Dilma, uma ex(?)-guerrilheira marxista, mas a maioria não é comunista exatamente, e sim criminosa e parasita, como vários políticos do próprio PT.  Quando se observa a existência do Partido Nacional Corinthiano, do Partido Ecológico Nacional e outras aberrações similares, a minha conclusão é que o espectro partidário brasileiro é formado por "50 tons de Flicts".  Enquanto a maioria dos brasileiros têm cores primárias ou secundárias, os habitantes de Brasília têm cores únicas e especiais.

Brasília parece existir em um mundo paralelo, como um planeta distante, uma dimensão paralela ou o mundo da lua mesmo, onde as regras aplicadas a nós não são válidas.  A conexão de Brasília com nossa realidade não é feita por rodovias ou por aeroporto e sim pelo verdadeiro sorvedouro do nosso dinheiro criado lá, resultando em leis e burocracias kafkianas.  A crise brasileira pode ser facilmente resumida em uma estatística, o PIB per capita do Distrito Federal é o maior de uma unidade federativa do Brasil e quase o dobro do segundo lugar, o estado de São Paulo.  É também simplesmente entre as principais cidades da América Latina, o maior PIB per capita.  Não é necessário recorrer a mais estatísticas para notar que o parque industrial e de serviços candango é medíocre e que a grande atividade de Brasília é a burocracia e o funcionalismo público, para não dizer corrupção.  A crise não atingiu tanto o Planalto Central pois o funcionalismo público é protegido por lei, às custas dos demais cidadãos, e os políticos detêm o poder de votar nos próprios salários.

Isso tudo não é novidade para a grande maioria da população brasileira, cansada da classe política, mas eleitora desta.  O problema é que estes "selenitas" que habitam o mundo da lua de Brasília são necessários para que se aprovem as reformas necessárias para tirar o país do atoleiro.  Como convencer um deputado, preocupado com sua reeleição em 2018, que as reformas previdenciária e trabalhista são mais do que cruciais, sem arriscar perder eleitores que tem medo dessas reformas?  Como fazer uma reforma tributária, sem que os governadores e prefeitos esperneiem com possíveis perdas de receitas?  E principalmente, como fazer uma reforma política, não aquela proposta por Dilma, que possa permitir que outras cores possam ser inseridas no espectro partidário político brasileiro?  Quem souber me avise.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Daqui para Frente

Ufa! Escapamos do cataclisma, que seria a reintegração da posse de uma chefe de nação sem a menor noção do que fazer, sem apoio para qualquer medida que viesse a tomar e, pior, com o histórico de atitudes que no curto, médio e longo prazo jogariam o Brasil para um precipício profundo.  Ou alguém não conhece a realidade desesperadora de nações como Venezuela e Cuba que tinham a admiração da cúpula do finado governo?  Mas colocar o último prego no caixão político de Dilma Rousseff não é suficiente para tirar o Brasil da crise ou até mesmo fazer que adentremos uma espiral virtuosa rumo ao desenvolvimento.  Nem Michel Temer, que por ser vice na chapa de Dilma por duas vezes mostra um grau preocupante de compactuação com os absurdos desta, será o responsável por nos guiar a "Terra Prometida".

Quem então nos guiará através do deserto da crise?  Aécio?  Marina?  Bolsonaro?  Nenhum deles, essa travessia cabe a todos nós, sem exceção.  Uma vez discutindo com um amigo na época de graduação, ele argumentou que o Brasil precisava de uma liderança que nos inspirasse para sermos melhor, porém argumentei que precisávamos nós mesmo sozinhos tomarmos a atitude necessária para engrenar.  Qualquer trabalhador que precise de um "grande líder" como chefe para fazer seu trabalho direito está precisando mesmo de um outro emprego ou repensar suas atitudes.  Será que nós como cidadãos precisamos de um grande presidente para fazermos a nossa parte?  É claro que, quando vemos nosso dinheiro de impostos ser gasto com MST, UNE, Porto de Cuba, ascensorista do senado e outros sorvedouros inúteis e imorais, fazer nossa parte é difícil, mas ainda é necessária.  Boas lideranças nos contagiam para darmos o nosso melhor, mas nem sempre isso é verdade.

Aqui uma boa liderança é considerada aquela que fornece uma miríade de benesses a seus liderados, dinheiro, saúde, dinheiro, moradia, tudo de graça.  Primeiro que não é de graça, já que nossa carga tributária beira os 40%, e então o brasileiro precisa entender que esta gratuidade custa é muito caro.  A quantidade de candidatos prometendo tudo isso para o povo só não é maior que os eleitores que exigem dos governantes essas gratuidades.  Prepotência minha à parte, quem quer moradia de graça e dinheiro fácil que vá ao Programa do Sílvio Santos!  O brasileiro precisa é arregaçar as mangas para conseguir o que quer.  Só tiramos Dilma do governo, pois fomos aos milhões para a rua pedir isso.  Saúde e educação são itens que podem ser considerados investimentos nos cidadão, então é um debate separado.

Essa mendicância endêmica serve de alimento para governantes populistas que prometem os céus para seus eleitores.  Só que o pedágio cobrado por esses é ineficiência e corrupção.  Mais dinheiro, o brasileiro vai ter quando o mercado de trabalho estiver mais aquecido resultando em mais empregos e maiores salários, menores custos para moradia vão vir com juros menores devido a uma redução do déficit público, materiais de construção mais baratos com uma profunda melhora da eficiência das nossas cadeias de produção, etc.

E o brasileiro precisa também se emendar em relação a sua moralidade, vide a notória carta de Mark Mason.  Observo que nos últimos tempos existe uma crescente intolerância contra aqueles que cometem delitos, mas a turma das "vítimas das injustiças sociais" é bem resistente e altiva.  E para piorar muitos de nós temos telhados de vidro.  A nossa conivência com pequenos (e não tão pequenos) delitos como sonegação de impostos, compras de produtos piratas, dinheiro para cervejinha dos guardas, entre outros, é inaceitável.  Esse tipo de conivência é a semente da corrupção, poucos nascem 100% pilantras, mas vão lentamente chegando a esta porcentagem.  O combate à corrupção tem duas etapas, a primeira é se extirpar os corruptos do poder e puni-los, a segunda é evitar que novos corruptos substituam os antecessores.

A pior desculpa possível para se cometer delitos é que outros cometem, ou que isso é justificável pois os delitos são contra os mais ricos.  E aí reside um grande mal do brasileiro, é culpar sempre os mais ricos.  Isso seria correto se esses ricos considerados fossem os políticos com seus salários e benefícios nababescos, porém o brasileiro gosta de apontar o dedo para a burguesia e o empresariado.  Pobre, operário, classe média, burguês e empresário estão todos no mesmo barco.  Ou trabalhamos juntos para mudar o futuro, ou já em 2018, outro populista corrupto é eleito para colocar o Brasil no rumo do cataclisma.

sábado, 30 de julho de 2016

A Muralha de Trump

Em 122 DC, o imperador romano Adriano construiu a famosa muralha em solo britânico que leva seu nome, a Muralha de Adriano.  A razão para a construção de tal fortificação é atribuída à necessidade de proteger os territórios romanos na atual Inglaterra contra invasões bárbaras como as realizadas pelos pictos.  Porém, este é um ponto de questionamento, uma vez que a obra em questão se localizava ao sul de áreas controladas pelos romanos.  A muralha tinha cerca de 120 km de extensão, altura e profundidade variando de 3 a 5 metros.  Essa obra foi precedida 20 anos depois pela muralha de Antonino, imperador romano e enteado de Adriano, localizada mais ao norte da mais famosa muralha e com cerca da metade da extensão da obra de seu padrasto. A muralha de Adriano serviu de inspiração até para a obra "As Crônicas de Gelo e Fogo" de George Martin.  Indago se essa muralha também serviu de inspiração para a promessa de campanha do candidato republicano Donald Trump à presidência americana.

Claro que Trump pode também ter se inspirado na Grande Muralha da China, obra ainda mais famosa que às romanas com extensão na casa dos milhares de quilômetros e cerca de 300 anos mais antiga.  Ou no infame Muro de Berlim criado para aprisionar alemães dentro do regime socialista imposto pelos soviéticos.  Ou ainda no polêmico Muro da Cisjordânia, que na verdade é composto em parte por cercas de arame farpados, criado ou para impedir terroristas palestinos de adentrarem território israelense, segundo israelenses, ou para Israel expandir as suas fronteiras dentro de território palestino, segundo os que são contra Israel.

O que difere a Muralha de Trump das demais fronteiras físicas artificiais é que esta tem o intuito de criar uma barreira entre dois países de relativo bom relacionamento com extensos laços econômicos, comerciais e culturais.  A Muralha de Trump se estenderá pelos quatro estados americanos, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia, que tem fronteira com o México.  Sim, o país latino tem graves problemas sociais além de parte do território ser infestado e dominado por cartéis de narcotráfico, mas o mexicano não é nenhum bárbaro que pilhará Washington ou terrorista que se explodirá em pleno Central Park.  Sem contar que os criminosos mexicanos já fazem uso de túneis em cidades fronteiriças (San Diego / Tijuana e El Paso / Ciudad Juarez) e até de submarinos para burlarem a fronteira entre os dois países.  Indago se caso Trump chegue realmente à Casa Branca, se tal projeto realmente não seja vetado pelo Congresso.

Recentemente, estive trabalhando em Michigan, estado americano com alta taxa de desemprego e até mesmo decréscimo populacional em seu grande centro urbano de Detroit, e ouvi algumas críticas aos sindicatos locais.  Um gerente de uma planta elogiou os trabalhadores mexicanos por estarem dispostos a trabalharem mais e melhor do que os americanos, que fazem questão de usar os sindicatos para imporem condições aos empregadores.  Claro que existem empregadores que abusam e exploram da agonia dos imigrantes para imporem condições trabalhistas abusivas, mas é inegável que os sindicatos americanos prejudicam o mercado de trabalho americano.  Ao invés de construir uma nababesca muralha, Trump poderia rever as relações trabalhistas.  Mas aí surge o problema é que o trabalhador americano sindicalizado vota e o imigrante ilegal não...

Outra proposta é a de se proibir (ou dificultar) a entrada de muçulmanos nos EUA.  Entendo que é uma afronta à Constituição Americana, mas isso é um tema para debate mais extenso.  Trump depois aparentemente recuou dizendo que barraria somente os muçulmanos de países comprometidos com o terrorismo.  Como o próprio Bush filho disse após os ataques de 11 de setembro de 2001, os EUA tinham sido atacados por um covarde sem face, isto é o terrorismo não tem uma bandeira identificável.  Fala se até em dificultar a entrada de franceses e alemães, países que segundo Trump foram permissivos com a entrada de terroristas e, portanto, sofrem agora com este problema. 

Qualquer candidato que se promova por propostas tão polêmicas e as apresente como soluções simplistas para problemas complexos deve ser observado com cautela.  Quando o Levy Fidelix se baseia em um programa como a canalização do Rio Tietê e a construção do aerotrem, ele é engraçado pois não tem chance de vitória, mas usa do nosso dinheiro para promover esses absurdos.  Trump assusta pois lidera as pesquisas de intenção.  E fica a questão do que Trump realmente planeja fazer caso ganhe a eleição.

Suas propostas na área de saúde e de educação não são nada absurdas e sob certa ótica até mesmo sensatas, mas há outras que assustam bastante, mais até que a construção da Muralha de Trump.  O discurso de dificultar estrangeiros de trabalhar nos EUA servirá para que outros países contratem bons profissionais estrangeiros, assim alavancando empresas não-americanas e criando uma considerável penalização às americanas.  Os EUA possuem um formidável contingente de profissionais capacitados, mas historicamente sempre atraiu profissionais estrangeiros altamente capacitados que ajudaram o país a ser a potência que é.

Também assusta o discurso de punir empresas que resolvam transferir suas linhas de produção para outros países.  A ameaça de Trump de punir a Apple caso esta produza o iPhone fora dos EUA é benéfica para companhias estrangeiras que poderão se valer de produzir um telefone celular mais barato e no futuro comercializá-lo a preços mais competitivos em território americano e estrangeiro.  Ou será que Trump irá sobretaxar produtos de alto valor agregado?  Se Trump soubesse o que foi a Lei da Informática no Brasil!

Isso sem contar as mais bravatas de impor restrições aos chineses, esquecendo que estes têm alto grau de entrelace comercial com os EUA e de participação no mercado financeiro, inclusive financiando a dívida americana.  É de arrepiar pensar uma reunião entre Trump com o déspota ardiloso Vladimir Putin.  Para aqueles que não nasceram durante a Guerra Fria, este é um pensamento sombrio.

A história nos ensina que movimentos migratórios podem ser catastróficos para algumas nações, mas o que Trump propõe não é solução e pode em um curto prazo resultar em algumas melhoras para os americanos.  No longo prazo, esse tipo de postura tem um custo alto.  A última coisa que se quer são os EUA abraçando um populismo raso, xenofobia e isolamento.  Não é benéfico para o mundo civilizado e não se conhece nações que tenham prosperado nessas condições.


sábado, 25 de junho de 2016

A Catástrofe Britânica

Os fãs de ficção científica e leitores as obras de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke vão lembrar que na maioria das estórias a raça humana e a Terra eram unificadas em uma única nação.  A série Jornadas das Estrelas vai então além, cria um universo no que não só essa unificação é consolidada na forma de uma utopia esquerdista onde não existe miséria, todos são felizes e o dinheiro foi abolido, mas como ela é expandida para outros planetas habitados por outras raças, como os vulcanos.  Todos eles vivendo de acordo com o American Way of Life.  Até Babylon 5 abraçou esse conceito, menos utópico, mas com as unidades imperiais não sendo substituídas pelas métricas e com o beisebol sendo mais popular que o futebol em Marte.

Viagens interplanetares, inteligência artificial, robótica avançada, contato com alienígenas e outros conceitos futuristas talvez só sejam atingidas daqui a séculos, mas a unificação da raça humana na Terra sob uma única nação deve demorar mais que estes.  O Brexit é a prova da dificuldade de se obter esta união, apesar de grandes avanços feitos nos últimos séculos e contínuos esforços para um maior entendimento entre os diferentes povos.  Os cidadãos do Reino Unido resolvem regredir um pouco mais no caminho desta maior união, mostrando que o ser humano tem resquícios sim de desconfiança dos seus vizinhos e que um sentimento saudável de nacionalismo se degenera facilmente em uma tendência ao isolamento.

A história da humanidade é repleta de exemplos em que povos mantiveram por séculos um ranço que resultaram em guerras, diásporas e movimentos separatistas.  O Canadá, por exemplo, em 1995 esteve muito próximo de se separar em dois, numa demonstração que mesmo em um país rico e com sólidos fundamentos democráticos, o conceito de união entre povos diferentes pode ser fugaz.  Mas um dos mais marcantes eventos é a Catástrofe.

Gregos e turcos nunca se deram.  Por séculos na Idade Média, os gregos do Império Bizantino travaram uma árdua e ineficaz batalha para conter primeiro o avanço dos turcos seljúcidas e depois dos turcos otomanos.  Antes mesmo da queda de Constantinopla em 1453, os bizantinos já estavam em acentuado declínio e foram subjugados pelos turcos por quase 400 anos.  Durante o jugo otomano, gregos e turcos não se miscigenaram muito, mas suas populações se misturaram consideravelmente.  Cidades como Constantinopla, Adrianópolis, Esmirna e Tessalônica eram habitadas por turcos e gregos em razoável harmonia.  Com a independência da Grécia em 1829, a tendência foi a de se piorar as relações entre estes povos.

Mas até o início da I Guerra Mundial, gregos e turcos ainda coabitavam as mesmas cidades, sendo estas em território grego ou turco.  Como o Império Otomano se uniu aos Poderes Centrais liderados pela Alemanha, houve receio dos turcos que os gregos morando dentro das fronteiras otomanas viessem a se tornar insurgentes.  O resultado foi o início da expulsão de vários gregos de território otomano e por fim o genocídio grego que só foi interrompido com a derrota otomana para os Aliados no final da guerra.  A Grécia sentindo a fraqueza de seus adversários, invadiu em 1919, um ano após o fim da I Guerra Mundial, o Império Otomano no intuito de se reconquistar territórios que historicamente pertenceram aos gregos.  Essa guerra local terminou em 1922 quando os turcos rechaçaram todo o avanço grego.  Ao fim desta guerra, o Império Otomano tinha sido dissolvido e a República da Turquia formada, mas havia o problema que mesmo com o genocídio grego, ainda haviam bastante gregos em território turco, e vice-versa!

A resolução para aquela situação é conhecida como a Catástrofe da Ásia Menor, no qual as populações turcas e gregas em territórios opostos foram deportadas simultaneamente.  A definição de quem era turco ou grego era baseada praticamente na religião do cidadão.  Apesar do jugo turco muçulmano sobre os gregos ortodoxos, os primeiros sempre foram tolerantes com a crença dos segundos.  Cerca de 300 mil gregos ainda permaneceram em Istambul, novo nome de Constantinopla, mas gradualmente foram forçados a emigrarem para a Grécia devido a perseguições dos habitantes locais e do próprio governo turco.  Apesar de Grécia e Turquia terem fechado um acordo de compensação entre os dois países, o prejuízo individual de cada um dos deportados é incalculável.  Gerações de cidadãos de repente se viram na situação de deixarem suas cidades natais para emigrarem para uma terra até um certo ponto estranha, praticamente sem bens e com um futuro incerto pela frente.  Cidades inteiras na região da Anatólia foram abandonadas, causando certo prejuízo à economia turca.

Não consigo vislumbrar os britânicos agindo como os turcos fizeram no passado, mas com certeza o Brexit vai causar problemas graves.  Milhares de trabalhadores estrangeiros com passaporte comunitário participando ativamente da economia britânica se encontraram da noite para o dia em uma situação à priori irregular.  Empresas alemãs, francesas, italianas, etc. em solo britânico, que empregam britânicos, também terão dúvidas de como a situação destas ficará.  Ninguém em sã consciência promoverá deportações em massa ou confiscos de propriedades de estrangeiros, mas espere um gasto enorme com advogados e burocracia para se resolver essa situação.  E esta deve ser regularizada rapidamente, pois sempre haverão os aproveitadores tentando obter lucro da confusão inicial.  O problema é que qualquer solução justa e sensata demorará para ser atingida.

Na antiguidade, a extensão de uma nação era limitada basicamente pela capacidade de se mobilizar tropas e distribuir alimentos em todo o território.  Com os avanços tecnológicos, essa capacidade foi aprimorada permitindo que as nações se tornassem mais íntegras e extensas.  Industrialização, globalização, integração das cadeias de suprimento, parcerias de pesquisa entre outros fatores contribuíram para que desde o fim da II Guerra Mundial não houvessem mais conflitos entre os principais atores do cenário político mundial.  Sim, é claro que EUA e URSS não chegaram "as vias de fato" pelo temor da destruição mútua também.  Mas houve avanço notáveis desde então no quesito de integração entre as nações.

Mas o que impressiona, é que mesmo apesar de todos estes avanços, continuamos suspeitando de nossos vizinhos, às vezes com razão mesmo.  Quanto mais fragmentada for a humanidade, mais difícil será a resolução de problemas que espreitam no horizonte, como escassez de recursos naturais.  Aliás esse é um bordão repetido por vários que no instante seguinte criticam americanos, argentinos, russos, japonenses, ou seja lá quem for a vez de serem criticados.  Basta esse vizinho falar uma língua diferente, ter uma religião diferente ou não parecer conosco.  Gregos e turcos ainda brigam hoje por território no Mediterrâneo, mesmo ambos sendo membros da OTAN.  É difícil mesmo...


terça-feira, 31 de maio de 2016

A Rotação da Terra e o Burro na Sombra

Tentei mas não descobri de onde vem a expressão “amarrar o burro na sombra”.  Mas o significado é bem conhecido.  É o de estar com a vida ganha.  O detalhe é que muitos esquecem que devido à rotação da Terra, as sombras mudam de lugar durante o dia, o que pode ocasionar em o equídeo em questão ficar exposto ao sol.  Conheço alguns amigos e colegas que mesmo sabendo do “deslocamento do Sol no horizonte”, não se preocupam em procurar novas sombras.  Alguns se queimam, outros conseguem sobreviver a este momento de exposição passando certo sufoco.

Ao visitar uma fazenda de crocodilos na Austrália, lembro-me do guia falar que os crocodilos faziam basicamente duas coisas: armazenar energia e se reproduzir, o que ele admitiu serem as suas favoritas.  Podemos extrapolar para boa parte da população que existe uma tendência natural de procurarmos nos acomodar ao longo do tempo.  Outros não conseguem sequer imaginar a sua vida resumida a estas atividades prosaicas, precisam estar sempre progredindo ou sentindo que estão progredindo, apesar de poderem estar estagnados.  Esses diferenciados são necessários à civilização, pois graças a estes, negócios são gerados, avanços científicos são desenvolvidos e empregos são criados.

Mas e os demais que querem “armazenar energia”, o que os leva a se acomodarem?  Apesar de todo guru de RH tecer uma miríade de conceitos do que deve ser feito para se progredir na carreira, a verdade é que muitos não querem ou não enxergam nisso uma prioridade.  Um bom supervisor não necessariamente quer ser um gerente, e um bom gerente não necessariamente quer ser um diretor.  Quanto mais se ascende na carreira, mais responsabilidades serão incumbidas, mais tempo será consumido no trabalho, e mais será exigido das capacidades do profissional.  Conheço bons profissionais que simplesmente não almejam qualquer tipo de promoção, gostam do que fazem, até se dedicam mais do que o necessário.

Dois problemas surgem com esse tipo de atitude, o primeiro mais óbvio é de se expor à concorrência de profissionais mais jovens com mais ambição e menor custo muitas vezes, o que pode fazer com que a empresa promova uma “reciclagem”.  Funções com baixo grau de complexidade e na qual a experiência do profissional é pouco exigida são onde profissionais estão mais vulneráveis a serem “reciclados”.  Os acomodados algumas vezes superestimam suas importâncias em uma empresa e menosprezam a capacidade e o ímpeto de recém-formados.  Esses acomodados até não acreditam que vão se aposentar como assistentes e auxiliares, mas são tomados por uma letargia que os impedem de se mexerem.  Algumas empresas institucionalizam esses acomodados numa simbiose frágil, muitas vezes por receio de não encontrarem alguém no mercado de trabalho que possua a mesma dedicação, ou até pela formação de um vínculo emocional do patrão com o empregado.  No Brasil, esse tipo de simbiose é perigosa devido à nossa obtusa legislação trabalhista, uma vez que um funcionário antigo tem em várias ocasiões aumentos consecutivos de salário (dissídios) acima do crescimento da empresa, além do crescimento da multa rescisória do FGTS.   

O segundo problema é o de se menosprezar as lentas, mas constantes, mudanças na macroeconomia e no mercado de trabalho.  O maior erro que um funcionário pode cometer é o de se achar imprescindível à sua empresa.  Poucos são capazes de enxergar mudanças e tendências no mercado de trabalho que podem resultar até na extinção de setores da economia.  Mas a minha impressão é que menos ainda são aqueles dispostos a tomarem atitudes para se recolocarem mesmo sabendo de riscos eminentes.  Quantos bons datilógrafos perderam seus empregos quando as empresas começaram a passar a usar processadores de texto tipo Word Perfect ou Microsoft Word?  Acredito que alguns deles mesmo sabendo do avanço da informatização, não acreditaram que seriam atingidos.  Outras vezes, o sinal dos tempos não precisa ser no macro, basta ser no micro, a empresa pode estar dando sinais de que promoverá cortes, mas são poucos que buscam refúgio em águas menos turbulentas.  Preferem agonizar por meses imaginando se vão ser demitidos ou não.  Em tempos de crise como a atual, fico surpreso que aqueles que mais procuram headhunters, empresas de recolocação, agências de emprego e outros são aqueles que estão desempregados.

Procurar emprego não é uma tarefa fácil e é demorada.  Exige dedicação, tempo e também resgatar contatos para se fazer o famoso networking.  Quantos de nós, ao final do dia queremos simplesmente relaxar com a família, assistir TV e nos desligarmos do trabalho ao final do dia?  E quantos de nós iremos ao final do dia redigir currículos ao gosto de empresas e agências na esperança que dentro de meses isso resulte em uma oferta de emprego?  É mais cômodo tocarmos o dia a dia no local de trabalho e torcer pelo fim das tormentas de momento e ignorar os fatos.  Além do que, quem quer perder as férias acumuladas ou na pior hipótese perder 40% de multa do FGTS depositado?  Mesmo que o prejuízo do desemprego seja superior a multa, essas tentações momentâneas fazem com que muitos fiquem na sombra mesmo com o Sol se movendo no horizonte.

É claro que a precipitação é um mau motivador para tomarmos atitude, às vezes passamos de um emprego com situação momentânea ruim para um emprego com situação permanente pior.  Há que sermos cuidadosos de não se mudar de emprego com frequência alta para não ganharmos a pecha de mercenário, no qual as empresas contratantes terão sérias dúvidas do comprometimento do funcionário.  Mas alguns sinais que o sol está se movendo devem ser observados: ociosidade, disparidade com a idade média dos equivalentes, estagnação em tarefas simples, distanciamento da chefia, entre outros bem menos sutis.  Observado isto, é hora de se procurar uma nova sombra.

As empresas devem tomar cuidado em não criar climas de insegurança generalizada e nem em exigir que todo funcionário almeje ser o diretor superintendente um dia, erro ainda comum cometido pelas chefias e os departamentos de RH.  Empresas que promovem excessivas “reciclagens” reduzem o moral de seus quadros, resultando em possíveis perdas de bons empregados, e incorrem no risco de contratarem substitutos pouco qualificados.  Afinal, os primeiros a saírem de empresas em turbulência são os mais qualificados, pois tem mais capacidade de se recolocarem, e só depois os acomodados.  Este é o motivo que as reciclagens devem ser feitas com muito critério e cautela.

Mas as empresas não são família e nem resort no Caribe para providenciar conforto e acomodação para seus empregados.  A sensação de tranquilidade e acomodação quem deve procurar somos nós e não esperar que isso venha de uma empresa.  É claro que é sempre bom trabalharmos em um local onde temos respeito e reconhecimento do histórico, da experiência e do legado de anos de bons serviços, mas não devemos esperar que isso seja certo e merecido.  Civilizações entraram em declínio por se acomodarem em situações transientes e o mesmo raciocínio é válido para nós.


terça-feira, 19 de abril de 2016

E Agora Michel?


Aleluia!  Demorou, mas finalmente foi dado o primeiro passo concreto para se apear do poder o PT retirando seu membro mais inepto, Dilma Rousseff, da posição onde o maior dano poderia ser causado.  Tudo indica que o Brasil vá ser comandado nos próximos anos por Michel Temer.  Não adianta espernear dizendo que ele não recebeu nenhum voto para presidente, pois Itamar Franco, Jango Goulart e outros também não receberam, mas assumiram o posto por terem sido eleitos vice-presidentes.  O brasileiro tem de ter mais critério para eleger presidentes e também mais atenção em quem está votando para vice-presidente, pois há sempre a chance deste vir a assumir o cargo de presidência.

Discussões à parte, Temer deve assumir em algumas semanas a presidência, a não ser que o Senado resolva recolocar o país em estado de convulsão não admitindo a denúncia aprovada na Câmara.  E então vem a pergunta que os brasileiros deveriam estar fazendo: e agora Michel, o que vais fazer?  Tirando os petistas de carteirinha, não havia dúvida que Dilma estava cavando um poço mais fundo para atolar o país, mas será que Temer sabe o que fazer para nos tirar do poço?  Quais as medidas que devem ser tomadas de imediato e no médio prazo para que possamos respirar e termos esperança?

Primeiro, o Brasil precisa mostrar para o mundo que é um país sério e que tem profundo respeito pela democracia.  É claro que parte da imprensa estrangeira, desprovida da mínima coerência e diligência, ou simplesmente por má fé mesmo, acredita que os motivos para o afastamento de Dilma são frágeis e que o que houve é um quase golpe.  É necessário escancarar as atrocidades fiscais cometidas nestes 5 anos de Dilma e pelo menos indicar que o Poder Executivo vai se comprometer em respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, algo que o mercado financeiro e as agências de risco vão estar de olho.  E claro, esse comprometimento é necessário para que os contribuintes não tenham que ver sua renda diminuída por mais impostos ou inflação.  Não vai ser nada fácil.

De qualquer maneira, o novo governo deve mostrar um alinhamento com as mais sólidas democracias e se afastar de ditaduras e protoditaduras.  Mais claramente, adotar uma postura de distância de Cuba e Venezuela enquanto estes países mantiverem regimes de supressão de liberdades individuais.  A proximidade obscena do PT com Castro, Chávez, Maduro entre outros, além de repugnante, sempre me fez indagar se Lula e amigos queriam implantar no Brasil regimes semelhantes.  Ter conversas mais estreitas com países como EUA, os da Comunidade Europeia, Japão e outros não só demonstra uma postura diferente como permitirá uma possibilidade de se abrir canais de comércio com nações ricas no futuro, algo que empresários sérios nesse país desejam para ampliar seus negócios, gerar mais riquezas e empregos.

Também de imediato, Temer pode reduzir drasticamente os gastos com o “Bolsa Companheiro”, que é talvez um dos maiores sorvedouros de recursos do Brasil.  O governo do PT tem cerca de 20 mil cargos distribuídos para funcionários não concursados.  Conhecendo a qualidade do governo de Dilma e o caráter dos altos dirigentes do PT, creio que a maioria desses funcionários deve ser composta por parasitas que além de não fazerem nada de útil, atrapalham o bom funcionamento das instituições.  Isso sem contar a dinheirama que é despendida com os “movimentos sociais”, sindicatos e similares como CUT, UNE, MST, etc.  Uma auditoria de quanto dinheiro foi gasto com essas pragas e como foi gasto este dinheiro seria desejável, mas se pararem de gastar com estes já ajudará em muito o resto do país.

Depois disso, as coisas se complicam e bastante.  Temer e seu partido nunca me passaram a impressão de serem discípulos de uma administração da coisa pública eficiente, correta e responsável, aliás, a impressão que tenho do PMDB é bem oposta.  O PT passou anos aparelhando, inchando e sucateando a administração pública e está na hora de um choque de competência para que essa combalida administração pública comece a fazer bem para o país ao invés de travar o nosso crescimento e infernizar nossa vida.

O país tem leis ou arcaicas ou absurdas que dificultam a economia e a geração de empregos.  A nossa legislação trabalhista é cheia de “direitos trabalhistas” que fazem que qualquer empregador sensato pense bastante antes de contratar alguém que implicitamente terá uma miríade de benefícios sem necessariamente em contrapartida ter de mostrar um desempenho no emprego.  A nossa previdência está quebrando, se já não estiver quebrada, mas todos os brasileiros querem ganhar muito quando aposentados e gastar pouco para contribuir antes da aposentadoria.  O nosso sistema tributário parece ter sido escrito pelo próprio Franz Kafka, não só se gasta um absurdo de impostos como também se perde muito tempo pagando impostos.  Reformas trabalhistas, previdenciárias e tributárias são urgentes, mas não vejo os velhacos que infestam o PMDB tendo essas reformas como objetivo.  Se Temer não cogitar essas reformas, dificilmente o Brasil poderá alçar voos mais altos que aqueles de uma galinha.

A nossa infra-estrutura está sucateada graças às ideologias burras do petismo, bem como a sanha de poder meter a mão no dinheiro público, e precisamos modernizar estradas, ferrovias, aeroportos, portos, etc.  Relançar PACs ou algo similar seria no mínimo deprimente. O país não tem dinheiro, então que os recursos para esta modernização sejam originários do setor privado.  Se Temer for adepto da retórica nacionalista míope, podemos esperar que as previsões do filme “De Volta para o Futuro – Parte 2” se concretizem e que em breve não precisemos de estradas ou de usinas elétricas.  Acho improvável...

E por último, mas igualmente importante, um combate implacável à corrupção endêmica do país.  O governo brasileiro precisa ser menor e mais transparente.  Os gastos públicos devem ser menores e precisam ser informados ao público.  O PT torra a nossa grana com hospedagem em hotéis caros, aluguéis de limusines, voos de primeira classe e esconde esses gastos do público.  É simplesmente inaceitável.  Apesar do PMDB não ser nenhum campeão de lisura, fica a esperança que Temer implemente os mínimos mecanismos para o escrutínio de como nossos impostos são gastos.

Estes são alguns dos pontos que Michel Temer e seu novo governo devem abordar nos primeiros momentos.  Há muitos outros como redução do número de ministérios, retomada das privatizações, independência do Banco Central, que também são igualmente necessários e importantes.  O novo governo deve levar a crise a sério, saber articular uma união entre os partidos que se opuseram à Dilma e tentar colocar de novo o país no eixo.  Pior do que não sairmos da crise nos próximos anos, é termos de cogitar a possibilidade de ter alguém eleito em 2018 que nos coloque de novo no fundo do poço.  Michel, não nos desaponte!

segunda-feira, 28 de março de 2016

Como Chegamos Até Aqui?



Recentemente, o americano Mark Manson fez um razoável sucesso e barulho nas redes sociais ao publicar uma carta aberta aos brasileiros relatando no seu entendimento o porquê da antiga Terra de Santa Cruz não dar certo e de nossas tentativas de vôos de águia se transformarem em de galinha.  Lista entre os problemas de nós brasileiros o desrespeito às regras e a complacência com aqueles que desrespeitam as regras, e também cita até a vaidade como um desses problemas, uma vez que nós brasileiros gastamos nossos recursos e tempo em adquirir bens caros sem necessidade.  Realmente, esse último item é verdadeiro, pois nos EUA por preços muito mais acessíveis podemos comprar estes mesmos bens desnecessários.  Pode-se rebater os argumentos de Manson, mas no fundo sabemos que muito do que ele escreveu é verdade apesar de suas conclusões serem um pouco exageradas e incompletas ao meu ver.

À medida que as páginas policiais ditam o rumo de nossa política e economia, o Brasil tem se unido para apear do poder a quadrilha que lá se instalou e tirar a economia do fundo do poço.  Aliás, este é um poço que Dilma insiste em cavar para nos afundar mais ainda.  É provável que consigamos expurgar a encarnação viva da incompetência que habita o Palácio da Alvorada, e que isso traga um alívio momentâneo para nossa combalida economia resultando em maior geração de empregos, menos inflação e menor recessão, mas o que impede de nós continuarmos aumentando este poço?  Para responder isto, o brasileiro deve tentar entender como chegamos até aqui.

Manson afirma que toleramos a desonestidade alheia e endêmica desta terra, o que poderia explicar o porquê de tantos políticos serem corruptos.  Embora políticos corruptos não sejam exclusividade do país, aqui temos uma categoria de políticos corruptos resilientes de fazer inveja a qualquer outro país.  Renan Calheiros e Paulo Maluf são provas vivas que de norte a sul deste país meter a mão no dinheiro público com frequência não resulta em punições eficazes da justiça e nem em reprovação pública.  Porém, nada se compara a reeleição de Lula em 2006 após o escândalo do Mensalão.  Isto é uma mácula na história brasileira no qual o povo brasileiro não pode culpar ninguém mais além de si próprio.  Usando de uma lógica que alternava entre a ignorância consciente e o mais puro cinismo, o eleitorado brasileiro não condenou nas urnas Lula.  A aprovação de um político complacente, para não dizer participante, com um escândalo de corrupção daquela magnitude foi o sinal verde para que a administração do PT avançasse mais ainda encima do patrimônio brasileiro.  Mas mesmo assim a opinião pública aprovou e celebrou a condenação dos demais envolvidos no Mensalão numa demonstração de incoerência.

Lula é dotado de uma esperteza incomum e um carisma singular, o que infelizmente ele usou para eleger Dilma em 2010.  Esta é uma pessoa com um carisma de um morcego e uma liderança de um rinoceronte.  E mesmo com a economia desandando, o brasileiro decidiu reeleger Dilma em 2014.  Como?  As promessas de campanha de Dilma eram tão absurdas que uma análise simples mostrava que o país estava na beira do precipício.  Será que o brasileiro é tão crédulo assim para acreditar em um populismo do mais rasteiro possível?

Aí entra minha percepção dos verdadeiros problemas do Brasil.  Somos um povo que acreditamos em milagres, principalmente se eles vierem do governo.  Esse é para nós uma entidade mística que do éter pode transformar pobreza em riqueza.  Se não faz isso é porque se interessa em defender os interesses dos ricos.  E é claro, no Brasil acredita-se que a pobreza é resultante da exploração dos pobres pelos ricos.   Enquanto um empresário que gera negócios e empregos for visto como um explorador da massa operária, o país estará condenado à estagnação.  Afinal qual o investidor vai querer abrir um negócio, com risco de ser associado a um vilão?  Mais fácil ser especulador ou investir em negócios em outro lugar.  O PT soube e sabe explorar essa percepção equivocada, resultando em vitórias eleitorais.  A inépcia crônica e vergonhosa da oposição fez com que até a reeleição de Dilma o PT fosse o partido dos pobres e os outros demais os partidos dos ricos exploradores.

Mas o que é chocante é que a percepção equivocada da situação não foi exclusiva da população mais pobre e humilde, ela foi compartilhada por uma considerável parcela de pessoas mais instruídas.  E até mesmo pelo mercado financeiro, afinal foi após o Mensalão, em 2008, que a bolsa atingiu 72 mil pontos, patamar jamais repetido, ganhamos grau de investimento, mostrando como as agências de risco são pouco confiáveis, o dólar atingiu um patamar de quase R$1,55, mostrando que até o estrangeiro é equivocado, e a The Economist mostrou o Brasil decolando.  É claro que o mercado financeiro e a The Economist em 2014 tinham revisto por completo a opinião da administração petista, mas isso demonstra como na teoria instituições mais esclarecidas são capazes de menosprezar o efeito nocivo de políticas populistas comandadas por pessoas e organizações com objetivos escusos.

A euforia que assolou o país durante o governo Lula cegou os lúcidos, resultando na nossa incapacidade de reconhecer que era insustentável a manutenção da verdadeira farra promovida então.  Quando se demos conta que beirávamos o precipício, faltou a oposição ser mais incisiva e altiva para minar a campanha de Dilma em 2014.  A vitória dela foi apertada, mas ela ocorreu para a mais completa desgraça brasileira.


Agora o Brasil luta para não sucumbir à tempestade que nos assola, luta para o país não regredir quase 30 anos em termos econômicos e luta para que os corruptos de plantão tenham a punição merecida.  Quando Collor foi destituído em 1992, lutávamos pelas mesmas coisas e em 10 anos colocamos um dos políticos mais corruptos e nefastos no poder.  O PT alega que a corrupção é uma senhora antiga.  Na verdade, o PT não inventou a corrupção, mas ele é fruto de nossa permissividade com práticas pouco éticas com a coisa pública.  Esse é um momento de reflexão que o país deve passar por, para que nunca mais façamos o mesmo erro.  Para isso é necessário admitir que o povo brasileiro errou e identificar o que temos de mudar.