domingo, 15 de novembro de 2015

A Fortuna de um Saco de Batatas



Uma vez no escritório onde trabalhava, foi organizado um bolão para apostar na Mega-Sena que tinha o prêmio acumulado.  Nossa chefe ficou sabendo do bolão e pediu para também participar, alegou que se fosse bem sucedida a aposta, ela não queria ir trabalhar sozinha no departamento na semana seguinte.  Todos nós já devemos ter ouvido piadas, estórias ou delírios de colegas, amigos e familiares do que fazer se ganhássemos vários milhões de reais, passando por mansões, carros, viagens e até investimentos de longo prazo.  Mas não conheço ninguém que tenha falado que pretendia fazer um curso de especialização para investir na carreira, se dedicar mais ao trabalho, apesar de existirem, aliás a grande maioria gostaria no primeiro ato pedir demissão.  Alguns até pensam em abrir um negócio próprio para se ocuparem, mas uma boa parte pensa em relaxar e aproveitar.  Obviamente que não foi bem sucedida a aposta e todos os participantes foram trabalhar, minha ex-chefe inclusive.  Mas fico imaginando a cena insólita de uma segunda-feira no qual chegaria para trabalhar com o departamento vazio.  Para empresa seria um completo desastre e, dependendo da quantidade de ganhadores, até significaria uma inevitável falência.

Na obra-prima de Scott Adams, O Princípio Dilbert, o último capítulo é dedicado ao sistema concebido por Adams de OA5, em inglês Out at 5, ou seja no qual ele defendia que os funcionários saíssem às 17:00, pois longas horas de trabalho implicariam mais funcionários desmotivados e descontentes no trabalho.  Exageros à parte, afinal todo o universo do Dilbert era engraçado por ser justamente exagerado, Adams tem um ponto válido.  Nem todos nós temos motivações ou condições de nos tornarmos milionários, condição que para se chegar demanda na esmagadora maioria das vezes esforço, dedicação, diligência e sacrifício.  A motivação para se gastar horas do dia, e da vida, longe de casa, aturando algumas vezes superiores intragáveis é que receberemos um salário não-milionário, apesar do esforço, dedicação, diligência e sacrifício, para podermos sobreviver e até guardar algo para o futuro.  Tire a necessidade desta pessoa dispender este tempo para sobreviver e guardar algo para o futuro, e esta pessoa não terá mais essa motivação para trabalhar.  Claro, alguns realmente gostam do que fazem, não sabem o que podem fazer com o tempo livre, possuem um senso de civismo diferenciado e, portanto, trabalham por motivações diferentes.  Não devemos julgar nem aqueles que sonham em se aposentarem com o prêmio da loteria e nem aqueles que apesar de não admitirem não iriam mudar a rotina.  Mas as motivações mudariam na situação de se ganhar um prêmio polpudo.

Desde que me conheço como brasileiro, sempre ouvi que se achássemos petróleo ou outros minerais preciosos, como o nióbio (!), seríamos ricos.  Lula no auge do seu populismo bradou que tínhamos achado um bilhete de loteria premiado com pré-sal.  Sempre tive dúvida se realmente achamos este bilhete premiado, apesar da certeza que muitos do governo lulopetista acharam uma verdadeira mina na Petrobras para rapinar e pilhar durantes estes 13 anos.  Mas partindo do pressuposto que realmente ganhamos um bilhete de loteria naquela época, o que faríamos com este dinheiro?  Sempre ouvi que se achando petróleo, o povo brasileiro seria rico e membro da OPEP.  Isso significaria que todos seríamos milionários e poderíamos em tese parar de trabalhar e nos aposentar?  Que poderíamos ter um padrão de vida igual ao de países do primeiro mundo sem ter os mesmos índices de produtividade, nível de educação e consciência cívica?  Os tais dos royalties do petróleo do pré-sal foram alvo de acalorado debate no congresso brasileiro.  Mesmo sem sabermos se era economicamente viável explorar ou não esse petróleo, vários queriam participação nessa possível renda.  Estados milhares de quilômetros distantes do litoral fluminense pleiteavam parte do prêmio do suposto bilhete premiado, enquanto o governo fluminense tentava enxotar essa turma alegando que sem esse dinheiro não haveria as Olimpíadas de 2016.  Argumentos a favor e contra a distribuição dos royalties proliferam, mas pelo menos para mim ficou claro algo, se é que já não estava antes, nós os brasileiros, não só a classe política, preferimos discutir a distribuição da riqueza alheia a discutir o que realmente é necessário fazer para o país entrar nos trilhos.  Não lembro de ter visto esse tipo de empenho para se realizar reformas previdenciária, trabalhista e tributária.

É mais do que sabido que países como Japão, Finlândia, Holanda, entre alguns outros, são ricos sem terem ganho bilhetes premiados da loteria.  Alguns países membros da OPEP são também ricos, mas seus índices culturais, educacionais e até mesmo sociais são medíocres.  Basta olhar a Venezuela para se ver que petróleo não se traduz em riquezas e nem em mais justiça social.  Na verdade, enquanto um povo se ater aos princípios mercantilistas da Idade Média e Moderna, esse povo estará condenado à mediocridade.  Somente uma sociedade empenhada em gerar riquezas pelo trabalho, e enfatizo pelo trabalho qualificado, conseguirá ser próspera.  Não precisamos de uma sociedade composta por workaholics, mas sim por pessoas que acreditam que não há caminho fácil para o sucesso.  Apesar de uma esmagadora maioria desejar ser premiada na loteria, não podemos ficar sentado esperando isso acontecer.  Se o Brasil não achar petróleo, ou até nióbio, suficiente em seu território, isso não quer dizer que seremos condenados à pobreza crônica.

Lembro do clipe da música Rubão da banda Charlie Brown Jr no qual é mostrado um pobretão achando uma carteira recheada de dólares e ao invés de se investir em seu futuro, o sujeito resolve torrar em festas, carros e mulheres.  Nunca consegui descobrir se a banda quis fazer uma apologia à “virtude da pobreza”, ou ridicularizar aqueles que acham que por descobrirem um punhado de dinheiro irão ser eternamente milionários.  Mas existem muitos que sonham em ganhar uma “grana fácil” para não fazer nada, é só pesquisar e ver quantos parentes de artistas e esportistas bem sucedidos se penduram nestes.  Apesar que há alguns artistas que quando se tornaram famosos resolveram colocar todos os seus familiares para trabalhar em seus negócios, e estes foram o que mais prosperaram.  Na minha experiência de vida, dinheiro que é ganho fácil nunca tem seu valor reconhecido, e quanto menos alguns não trabalham, mais eles exigirão daqueles que trabalham.  No dia em que ficarmos todos milionários por termos achado bilhetes premiados de loteria, petróleo abundante no país ou até por termos todos parentes ricos, seremos todos miseráveis, pois ninguém vai querer trabalhar.  Se todo mundo relaxar e resolver não trabalhar mais, quem irá  produzir alimentos, vestimentas, energia, etc?  Daí vai acontecer que nem um antigo colega de trabalho meu profetizava, quem tiver um saco de batata vai ser o realmente milionário.  

sábado, 3 de outubro de 2015

Delenda est Leblon

Na Segunda Guerra Púnica (218 – 201 AC), o comandante cartagenês Aníbal aterrorizou os romanos invadindo a península itálica inesperadamente pelo norte com um exército formidável que era famoso pelos elefantes de guerra.  Os romanos tiveram que enfrentar por quase 15 anos o exército de Aníbal em seu território, no qual o cartagenês infligiu várias derrotas às forças locais.  Na história de Roma, excluindo a fragmentação do império nos séculos IV e V, jamais houve tamanha adversidade enfrentada pelos romanos como esta que os cartageneses impuseram.  Mesmo assim, os romanos conseguiram se sustentar e defender como possível contra uma força superior em seu território e obtiveram vitórias contra os cartageneses em outras frentes de guerra.  No final, Aníbal foi obrigado a abdicar de suas posições na península itálica e retornar a Cartago para defendê-la, pois os romanos contra-atacaram invadindo território cartagenês.  A Batalha de Zama, na atual Tunísia, marcou o final deste conflito com o sucesso romano e uma imposição de reparos de guerra duríssima aos cartageneses. 

O temor que os norte-africanos voltassem às armas para um novo conflito e o ressentimento contra aqueles que quase os derrotaram imperou em Roma nos anos pós-guerra.  O senador romano Catão, o Velho, freqüentemente entoava em latim “Delenda est Cartago”, ou seja “Destruam Cartago”.  O ódio romano aos cartageneses foi o que causou a Terceira Guerra Púnica (149 – 146 AC), que foi deflagrada pela absurda exigência romana aos cartageneses de destruírem a própria cidade.  Após quase 3 anos de sítio, os romanos tomaram Cartago, dizimaram a população local, escravizaram os sobreviventes e queimaram todas as construções.  Diz a lenda que os romanos salgaram o solo local para impedir que Cartago fosse reerguida, algo jamais comprovado e atualmente desacreditado.  Cartago foi reerguida sob o jugo romano para ser destruída de novo pelos árabes em 698 DC.  Hoje, Cartago faz parte da região metropolitana de Túnis na Tunísia.

Em 1985, os prefeitos de Roma, Ugo Vertere, e Cartago, Chedly Klibi, assinaram oficialmente o tratado de paz entre as duas cidades que tecnicamente estavam em guerra desde o final da Terceira Guerra Púnica.  Foi um evento simbólico, obviamente, mas cercado de certa pompa, pois refletia um gesto de paz e uma mensagem que há momentos que conflitos devem terminar e não ser reacendidos.  Seria insólito uma Quarta Guerra Púnica entre italianos e tunisianos!  Fico imaginando os tunisianos inflados pela Primavera Árabe em 2011 exigindo reparações históricas aos italianos por suas mazelas.  Talvez os italianos também exigissem reparações pelo terror em seu território causado pelos elefantes de Aníbal.  A Tunísia desde a conquista romana, passou pelo domínio de vândalos, gregos, árabes, turcos e franceses.  Apesar da destruição de Cartago ser comparada ao ataque à Hiroshima na Segunda Guerra Mundial, não há dívida histórica a ser paga, há muito tempo.

Vindo para o cenário brasileiro, o conceito de dívida histórica tem ganhado força nas últimas décadas.  Em 2012, o STF julgou constitucional o sistema de cotas raciais adotado pela UnB, como maneira de corrigir “distorções históricas”.  O fato da mais alta corte ter se manifestado dessa maneira só aumentou o discurso de várias indivíduos, grupos e entidades de orientação esquerdista que temos uma dívida histórica com as minorias.  Em um país de 43% de pardos e 7% de negros, fica a dúvida de quem é realmente minoria.

Recentemente, em mais um arrastão realizado no Rio de Janeiro, (pseudo-)intelectuais e políticos de esquerda vieram à defesa dos marginais alegando, outra vez, alegando que estes são discriminados socialmente e economicamente.  No Facebook, onde reina as mais profundas bobagens de esquerda, e de direita também, alguns mais imbecis ousam dizer que os celulares roubados dos banhistas eram itens de ostentação da burguesia e que os marginalizados tinham direito a um pouco de felicidade.  Mas me estarreceu um post que dizia que o primeiro arrastão foi promovido pelos portugueses em 1500!

Por mais que o post comparando o descobrimento do Brasil com os arrastões nas praias cariocas seja levado a sério por uma pequena parcela, isso mostra uma lógica perigosa que é insuflada neste país, principalmente nos governos lulopetistas.  Os nativos americanos realmente foram vítimas de atrocidades nas mãos de portugueses e espanhóis, principalmente destes últimos, mas se passaram 515 anos do descobrimento do Brasil e o momento é do país caminhar unificado para o futuro.  Além do mais, posso não ter as estatísticas étnicas dos marginais, mas o que parece não foi nenhuma tribo indígena que praticou o crime...  E mesmo que fosse, algo que aconteceu há séculos não justifica sob qualquer hipótese esse tipo de crime sob o a fachada de reparação histórica.

O preconceito e o racismo são chagas da sociedade que realmente existem e devem ser combatidos, mas o conceito de dívidas e distorções históricas é um precedente perigoso para se criarem mais distorções como as que já se multiplicam no país.  Basta ver o caso da desocupação da Reserva da Raposo do Sol em 2007 em Roraima, onde fazendeiros foram expulsos de suas propriedades e vários indígenas que trabalhavam para os fazendeiros ficaram desempregados e tiveram de deixar a reserva para procurar um sustento.  A desocupação foi consolidada pelo STF também e mostra um dos maiores perigos existentes para as instituições brasileiras.  Juristas com nítida inclinação à esquerda em posições de tomada de decisões, como os do STF, podem usar essa argumentação tosca, mas razoavelmente difundida, para se criar instabilidade jurídica e ampliação de conflitos, ao invés de aproximação entre os distintos.

O Brasil atual é um país democrático com amplos, e exagerados, direitos individuais garantidos pela Constituição.  Práticas como escravidão e ataques a aldeias indígenas são ilegais, além de abomináveis, e não são praticadas pela maioria da população há muito tempo.  E quem pratica algum desses crimes deve ser algo de ação da polícia e da justiça.  Não sei qual o valor cobrado desta tal dívida histórica, mas é repudiável a ideia de querer se passar um boleto para uma parcela da população que não deve nada a nenhuma “minoria” de pessoas auto-declaradas discriminadas que nasceram livres em um país que concede direitos plenos.  Enquanto todos nós, sem exceção, não abraçarmos a noção que somos todos iguais, apesar de diferentes, e o que o Brasil menos precisa é de cizânia, o Brasil vai continuar caminhando para o futuro com freio de mão puxado.  O conceito de dívida histórica é muito útil para aqueles que querem justificar suas mazelas em função do sucesso alheio e um pretexto terrível para a criminalidade.  Afinal, qual o objetivo de quem cobra essa dívida histórica, destruir o Leblon e outros bairros burgueses?  Salgar a praia de Ipanema?  Queimar a Barra da Tijuca?  Romanos e cartageneses precisaram de mais de 2000 anos para assinarem um tratado de paz, já aqui queremos rasgar a Constituição e criar novas regras para atender um revanchismo caduco.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A Dura Realidade dos Fatos

Muitos não lembram que em 1998, o mundo financeiro foi abalado pela moratória russa declarada pelo então presidente daquele país, Boris Ieltsin.  Foi o suficiente para causar pânico nos investidores e acelerar a ascensão do protoditador Vladimir Putin.  O agravante foi que a Rússia atraiu investimentos estrangeiros ávidos por maiores retornos aceitando um risco maior.  Investidores de renome e pouco juízo quebraram a cara.  Em 2001, a Argentina foi a bola da vez.  Deram tantos poderes extraordinários para o ministro Domingo Cavallo tentar salvar o que não dava par ser salvo e a economia da Argentina veio abaixo.  Neste período turbulento, que já havia se iniciado em 1997 com a crise dos Tigres Asiáticos, o mundo dos prognósticos econômicos parecia ter virado ao avesso.  Ninguém conseguia fazer uma única previsão sensata, muito menos as agências de avaliação de risco. 

O Brasil naquela época foi considerado o próximo caloteiro, afinal o país estava vulnerável de acordo com as próprias palavras de Pedro Malan em 1999 e foi sugado para o olho do furacão financeiro.  Agências de risco que falhavam constantemente nos tratavam com séria descrença.  As reservas cambiais eram baixas, pois o Banco Central em ano eleitoral inutilmente tentou segurar a cotação do dólar após a moratória russa.  Para piorar havia uma oposição irresponsável que prometia calote e centralização do câmbio.  O PT crescia nas pesquisas e não tinha como qualquer agência de avaliação de risco nos avaliar bem com esse tipo de “promessa”.  Mas quando em 2001 houve o “Apagão”, tinha gente até consultando almanaque para saber se ia chover mais ou menos em 2002 o que permitiria ou não que o Brasil pudesse crescer de novo.  Nada pior que investidor em pânico, não sabe o que fazer, tem medo de perder dinheiro, tem medo de arriscar, tem medo de não fazer nada, e quando faz algo, é besteira na certa.  Em suma, não raciocina e age de maneira completamente emocional.  Veio a crise de 2008, e as agências de risco mostraram toda a sua capacidade de errarem, chego a julgar que nesses casos quem usasse de serviço de cartomante talvez fosse mais bem orientado.

A realidade e a idealização da realidade são duas coisas distintas.  Lembro que além das crises financeiras dos anos 90, naquela época participava de várias dinâmicas de grupo em busca de emprego melhor.  Não que algumas dinâmicas de grupo não tenham sido bem feitas, mas participei de algumas dinâmicas que beiravam o insólito, conduzidas nitidamente por profissionais medíocres e que se julgavam os experts em psicologia e administração.  A realidade era que os candidatos não deveriam confrontar estes profissionais “meia boca” e sim saber como lidar com eles e se portar para receber uma boa avaliação, afinal o objetivo era ser contratado e não apontar os erros daqueles picaretas.  Agências de avaliação de risco com históricos de erros não deveriam ser tão levadas a sério, mas são.  Então qualquer nação soberana que queira atrair investimento estrangeiro terá que lidar com Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch.  Fundos de investimento têm cláusulas em seus estatutos de não investir em países com avaliações baixas, abaixo do grau de investimento.  Isso não é pouco dinheiro, e sim muito dinheiro, a ponto de Dilma ter que aturar um ministro “neoliberal” e “ortodoxo” como Joaquim Levy e dispensar Guido Mantega, alguém com previsões ainda mais absurdas.  Não adianta espernear, temos que nos saber portar diante destes profissionais para sermos bem avaliados, mesmo que boa parte deles seja picareta, inclusive porque existem outros que não são.

Lamentavelmente, nos preparamos mal para as “dinâmicas” com as agências de risco.  Beira o ridículo enviar um orçamento com déficit para o congresso, e isso por só próprio já era merecedor de rebaixamento.  Mas o problema é que desde algum tempo, o Brasil vem dando sinais de falta de seriedade com as finanças públicas.  Ganhamos o grau de investimento em 2008, porque, após anos de uma política monetária séria com comprometimento com superávit, pagamento de dívidas e respeito ao investidor, mostramos merecer esse grau.  Agora, com anos de maquiagem das contas públicas, pouca preocupação com o crescente déficit nas contas públicas, não tinha como não sermos rebaixados.  Não adianta apontar os erros passados das agências de avaliação de risco, os erros do país atuais são gritantes e evidentes.  Mesmo porque ainda que os investidores continuem agindo sem muito critério ou racionalidade, o Brasil demonstra sinais que qualquer um com bom senso não queira investir aqui.  Tanto que o governo está agora desnorteado, sem ter ideia do que fazer para ficar “bonito na foto de novo” e desesperado para conseguir aprovar qualquer remendo para tentar algo parecido com um ajuste fiscal.  Aumento de impostos, manutenção no cargo de um desprestigiado Joaquim Levy, cortes pouco substanciais na pesada máquina do governo não enganam mais.  O governo entendeu meio tarde a realidade destas avaliações e a seriedade  de um rebaixamento.

A realidade é que o capital financeiro está com aversão ao Brasil.  Os investidores são muitas vezes irracionais e se baseiam na opinião de quem já errou bastante.  Mas não são tão irracionais a ponto de investirem em países cujos líderes dão demonstrações inequívocas de amadorismo.  Agora o estrago está feito, mas não precisou ser feito pelas agências de avaliação de risco, bastaram 13 anos de PT.

sábado, 5 de setembro de 2015

A Conquista dos Planetas dos Herbívoros

O recente acidente com o caminhão transportando 110 porcos em Carapicuíba causou uma comoção, até um certo ponto grande, em virtude do sofrimento dos animais presos debaixo das ferragens.  O “final feliz” para os porcos resgatados é até emocionante.  O sofrimento alheio, mesmo de animais, é algo que deve ser evitado e combatido, embora nesse caso não houve dolo e sim um acidente.  Apesar dos porcos terem como destino o matadouro, estes devem ser respeitados até o fim.  Algumas religiões até exigem rituais específicos para abates de animais, mostrando o devido respeito a estes animais, por sinal merecido.  Não existe justificativa para tortura e sadismo, mesmo que o animal venha a se tornar salame ou rosbife e, portanto, em touradas sempre torço pelo touro.

Antes essas exibições de crueldade eram aplaudidas quase que unanimemente, mas à medida que a (parte da) raça humana evoluiu, rodeios, farras e espancamentos de animais em gerais estão sendo condenados publicamente, e mesmo assim ainda existem os fãs destas barbáries.  O direito dos animais ganhou uma atenção maior recentemente, mas fica a dúvida de até onde eles têm direitos.  Bovinos e suínos são mamíferos artiodáctilos que possuem uma inteligência limitada, mas considerável e sentem dor e tristeza.  Seria justo condená-los a uma vida de cárcere cujo encarcerador decide quando estes serão executados?  Dizem que porcos são ótimos animais de estimação, o que torna quase impossível algum dono de porco de estimação comer presunto.  Quem assistiu Babe e City Slickers talvez tenha virado vegetariano.  Quem gosta do The Smiths, provavelmente concorda que Meat is Murder.  Duvido que algum dono de cachorro vá à Ásia e procure comer carne de cachorro em restaurantes.

Quem estudou ecologia, a ciência e não o modismo, sabe que porcos e vacas ocupam o segundo nível na pirâmide trófica, acima apenas dos seres autótrofos, os vegetais.  O ser humano no seu despertar não estava no topo desta pirâmide, mas escalamos até o topo basicamente eliminando os nossos predadores.  Estou para conhecer alguém que queira, em sã consciência e livre de hipocrisia, ter um nível trófico acima do nosso atual.  Se todos nós nos tornássemos vegetarianos, então o ser humano deixaria de ser o predador dos porcos e das vacas, e estes por sua vez se tornariam nossos competidores.  Para se minimizar o sofrimento animal, a pirâmide trófica teria dois níveis só.  Faço a pergunta, existiria alimento suficiente para 8 bilhões de pessoas, 2 bilhões de vacas e 1 bilhão de porcos (populações estimadas)?  Isso sem contar os outros herbívoros existentes. Vale lembrar que planejamento familiar não é exatamente um forte do reino animal e, portanto, alguns animais sem um controle por predadores tendem a se tornarem pragas.  Os quase inúmeros roedores e insetos ao longo da história sempre competiram por alimentos conosco, e muitas vezes nos derrotaram.

Sem predadores, os herbívoros podem até se expandir além da capacidade de geração de alimentos pelo ecossistema, para esse caso Thomas Malthus estaria certo, o que causaria uma inevitável escassez de alimentos, possível extinção de vegetais e futura fome disseminada entre os herbívoros.  Se nos tornássemos todos vegetarianos, a motivação de prover alimentos para nossos novos competidores desapareceria e, pior, apareceria bastante motivação de lutarmos com eles pela quantidade limitada dos alimentos disponíveis.  Aliás, de acordo com a ecologia, duas espécies não ocupam o mesmo nicho ecológico.

E a pergunta que não quer calar, mesmo que a raça humana se torne herbívora, o que fazer com os seres carnívoros?  Nos aliamos a dois seres, cães e gatos, por estes possuírem hábitos carnívoros.  Aliás, os nossos amigos felinos são exclusivamente carnívoros.  E ainda não ouvi falar de cachorro vegano.  Imagino que depois do homem, os maiores predadores de vacas e porcos são os cães e os gatos, ou algum defensor dos animais tem outra explicação para a origem das rações para cães e gatos?  Na Idade Antiga, para se controlar a população de roedores que dizimavam colheitas estocadas em celeiros, os gatos foram introduzidos à sociedade para manter sob controle esse tipo de praga.  Pode se dizer que a humanidade prosperou graças a eles e suas sanhas assassinas.

A evolução das espécies aqui neste planeta começou com seres autótrofos e depois surgiram os heterótrofos, como nós.  Por definição, a sobrevivência dos heterótrofos depende da alimentação de outros seres.  Vai demorar um pouco para alguém descobrir como os seres humanos, e cães e gatos, possam fazer fotossíntese.

Crueldade é algo indesculpável, definitivamente não é kosher.  Os ativistas devem continuar sua luta por um tratamento justo aos animais, inclusive àqueles que servirão de alimentos.  Mas até alguém me responder o que fazer para me tornar um ser autótrofo e como ensinar às vacas e aos porcos que todos temos direito aos alimentos, eu vou assumir publicamente minha posição na pirâmide trófica.  Respeito a opção alheia, mas continuarei apreciando churrasco.  Mesmo que um dia, H.G. Wells venha a ter razão e meus descendentes se tornem elóis, ou seja alimentos dos morlocks, conforme retratado na obra A Máquina do Tempo.

sábado, 8 de agosto de 2015

Da Elba à Ferrari



No dia 14 de julho de 2015, os franceses comemoraram a data da queda da Bastilha, simbólico evento que é considerado o início da Revolução Francesa.  Aqui no Brasil assistimos ao espetáculo pirotécnico da Polícia Federal conduzir uma busca nas residências do ex-presidente e atual senador alagoano Fernando Collor de Mello em Brasília e em Maceió.  Nesta ação integrada à Operação Lava-Jato foram encontrados uma Ferrari, um Porsche e uma Lamborghini.  Na teoria, não há nada de ilegal em possuir carros esportivos, desde que tenham sido adquiridos usando recursos legais e estejam devidamente regularizados perante a lei.  Fica a dúvida de onde Collor pretende andar com estes carros em Maceió, já que as ruas do bairro da Jatiúca não são adequados para se desenvolver altas velocidades, inclusive no quarteirão da residência dele há uma lombada que é uma verdadeira “assassina de suspensões”.  Imagino que se ele tentar passar por esta lombada com um dos seus (ex-)carros o prejuízo será grande.

Em se tratando de Collor, não dá para esperar que as coisas estejam dentro dos conformes, muito menos que a imprensa e a opinião pública tenham um jugamento imparcial dele depois do que aprontou durante sua passagem na presidência do país.  Como atenuante do desastre administrativo, deve-se lembrar que Collor recebeu o país na beira do precipício.  Segundo o ex-presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, na verdade o Brasil já estava dentro do precipício.  A inflação em fevereiro de 1990 atingiu inacreditáveis 80% ao mês, a moratória declarada por Sarney arruinou a reputação brasileira por mais de uma década, nossas reservas cambiais eram uma fração da atual, etc.  Medidas drásticas eram necessárias, e surgiu o tal do revólver com uma bala só.  O problema era que quem atirou tinha uma mira muito ruim e não só errou o alvo como atingiu toda a população, que rapidamente passou a odiar Collor com todas as forças.

O confisco do dinheiro declarado no início de seu governo não só arruinou financeiramente várias famílias e jogou o Brasil em uma recessão sem precedentes, como também foi uma forma disfarçada do governo dar um calote generalizado na população brasileira.  Afinal o dinheiro confiscado foi remunerado em quase 1% para um mês de 80% de inflação!  Seu plano deveria ser estudado como exemplo de fracasso, pois em menos de 1 ano, o volume de dinheiro em circulação já havia sido retomado e a inflação disparou de novo.  Não dava para levar a sério um governo cercado de ministros de 5º escalão para baixo como Zélia Cardoso.  Rapidamente, o congresso se tornou hostil ao frustrado caçador de marajás que habitava a Casa dos Jardins Suspensos da Dinda, não só criando enormes dificuldades para um mínimo de governabilidade como procurando um pretexto para abreviar o mandato de Collor.  Qualquer motivo, como a notória Fiat Elba, serviria para expurgar alguém que a BBC definiu como o presidente playboy do Brasil.  O impeachment veio com um alívio de uma nação que simplesmente não suportava mais a aventura de alguém tão despreparado e amador, mas também com uma oportunidade de vários opositores tentarem lucrar com a euforia que assolou o país com a destituição de Collor.

Do lado positivo, Collor deu início a uma abertura do nosso mais do que fechado mercado e também às privatizações.  Este também tentou enxugar o número de ministérios extinguindo vários existentes na época de Sarney e unificando outros, resultando num total de 13, número que foi inflacionado no governo de seu vice-presidente Itamar Franco.  O Brasil mostrou resiliência e em um pouco mais de 4 anos com o Plano Real voltou a crescer e domou a inflação.  Servem de alento essas memórias que podemos emergir de crises sérias.

Quase 24 anos depois da derrocada de Collor, Dilma enfrenta um índice de rejeição de fazer inveja ao fluminense radicado em Alagoas, bem como um congresso hostil que a sabota com todas as forças não pensando se prejudicará o país ou não, apesar de enterrar as aspirações bolivarianas de Dilma e do PT.  Dilma não tem o olhar de alguém alucinado como Collor mas tem um péssimo temperamento e uma incapacidade ímpar de conseguir expressar qualquer pensamento lógico.  Como Collor, Dilma não consegue mais transitar pelo país sem ser vaiada ou insultada, a população simplesmente cansou da “Mandioca sapiens”.  É possível, infelizmente, que Dilma consiga terminar seu segundo mandato pois possui ainda um mínimo de sustentação partidária.  Dilma não recebeu o país na beira do precipício mas fez um notável trabalho de conduzi-lo até lá.  Fica a reflexão: quem foi o pior presidente Collor ou Dilma?  Qual aquele que mais estragos causou ao país?

O PT foi peça importante no embate com Collor durante o governo deste último.  A lógica ditaria que Collor estivesse na oposição do atual governo tentando lucrar com as auguras da atual presidente.  Mas como coerência e falta de vergonha na cara são raras neste país, Collor notoriamente se tornou aliado do PT!  No país da piada pronta, nos divertimos vendo que o escândalo da simpática Elba se tornou um delito menor perante ao incidente onde foram encontrada uma verdadeira coleção de carros esportivos.  Talvez alguém um dia contabilize, mas fica a impressão que Collor lucrou mais com o dinheiro alheio como senador de Alagoas do que como presidente.  Após seu calvário pós-impeachment, Collor foi até defender o aero-trem de Lavyr Fidélix no horário eleitoral, hoje é defendido por PT, PC do B, blogueiros chapas brancas entre outros.  O fato de Collor ter ressurgido com relativo sucesso é uma mostra de que o país passa por uma crise moral séria com efeitos sob certa ótica mais deletérios que aqueles decorrentes do famingerado Plano Collor.

Qualquer um que teve seu dinheiro confiscado, para não dizer roubado, em 1990 vai sempre repudiar Collor, mas o estrago de Dilma, e até mesmo de seu antecessor Lula, é menos evidente, apesar de não ser exatamente sutil.  Dilma e o PT difundiram país afora uma mentalidade que a culpa da miséria no país é da classe rica, que exclui os milionários e bilionários membros da alta cúpula do partido, que os problemas do país podem ser resolvidos com soluções simplistas como redução forçada de juros e de preços administrados, além de exarcebar rixas entre as regiões brasileiras e a animosidade racial.  Não que essas crenças já não existissem, mas elas foram amplificadas perigosamente.  Isso sem contar que programas de assistência social foram convertidos em programas de compra de votos, alianças foram feitas com a escória do planeta e ainda por cima ajuda a regimes ditatorias estão sendo fornecidas com dinheiro do contribuinte.  O pior foi ver o PT convencer o eleitorado que como estava “do lado do povo”, a corrupção praticada pelo partido era aceitável.  O Brasil endossou uma quadrilha em 2006 ao re-eleger Lula, ao invés de rejeitá-la como em 1992.

Mesmo que Dilma seja destituída, vai demorar para se livrarmos da crença que a distribuição de riquezas – dinheiro da classe média alta destinado em pequena parte para os miseráveis e em maioria para a elite (parasitas do governo) – é a meta superior de todo o governo e não fomentar um crescimento sustentável que possa impulsionar a população a pegar carona nele.  Cuspimos na cara de países com estreitos laços sociais e econômicos como a Itália para nos tornarmos aliados de protoditaduras como a da Venezuela.  Apesar de toda a rejeição à Dilma, boa parte da população ainda acredita nas bandeiras que o PT sempre defendeu, só não acredita que o PT seja mais capaz de realizá-las.  O prejuízo moral é incalculável.

Devemos nos atentar sim que o símbolo da corrupção deixa de ser um carro popular para ser um esportivo de alto luxo importado.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Triste Infância de Pedro



Pedro não foi o filho primogênito, na verdade teve dois irmãos que morreram antes de ele nascer, mas foi o que assumiria os negócios do pai no futuro.  Além dos irmãos, Pedro teve quatro irmãs.  Seu pai ficou viúvo quando Pedro tinha um ano e casou de novo, casamento que rendeu a Pedro outra irmã.  Mas nesse tempo seu pai manteve casos extra-conjugais com outras mulheres e teve mais 6 filhos com 3 amantes.  Órfão de mãe, Pedro ainda sofreria um outro golpe duro ao ver seu pai lhe abandonar aos 5 anos de idade, que por vontade própria partiu para cuidar de interesses próprios em terras distantes.  Mal conseguiu se despedir de seu pai que veio a falecer quase 3 anos depois.  Ao invés de brincar com outras crianças, Pedro teve que assumir os negócios do pai. 

É claro que por ter 5 anos, Pedro foi auxiliado por alguns amigos e colegas de seu pai, entre eles uma simpática mulher, Mariana de Verna, que Pedro formou um dos poucos laços afetivos durante a sua infância e sempre se referiu a ela como “Dadama”.  A rotina de Pedro era intensa, quando não estava aprendendo o ofício de seu pai, estava estudando.  A sua rotina o isolava de amigos e inclusive de suas irmãs, sendo que uma delas, Paula, faleceu 2 anos após o abandono do pai.  Quem o conheceu, o retratava como uma criança triste e solitária, que chorava com frequência e que era de difícil agrado.

Na ausência do pai, os negócios da família não iam bem.  José Silva, homem de confiança do pai, foi encarregado de cuidar destes negócios e de criar Pedro, mas não perdurou nesta função por muito mais que 2 anos.  Ele era autoritário e se indispôs rápido com Dadama e outros, sendo substituído por Manuel Andrade, alguém que não tinha a inteligência de José, mas de mais fácil trato.  Após 2 anos, outro tutor Diogo Antônio assumiu o posto, mas durou outros quase 2 anos deixando Pedro aos cuidados de Pedro Lima.  Este também não era exatamente um tutor dos mais bem quistos e seus rivais se articulavam para derrubá-lo junto com o seu grupo.

Apesar das tragédias familiares, do abandono de seu pai, o isolamento das irmãs e de outras crianças, a dura realidade de assumir uma responsabilidade enorme quando muito jovem, Pedro era considerado um adolescente de caráter e responsável.  Quando os negócios do pai estavam cada vez mais turbulentos, Pedro foi solicitado para assumir o comando.  É claro que a noção da enorme responsabilidade que viria com a emancipação ainda não era bem compreendida por Pedro, mas perguntado sobre o que queria, ele não titubeou e tomou a frente dos negócios.  Tinha 15 anos quando isto ocorreu.

Claro que Pedro de Alcântara não era pobre, não se tem relatos que era abusado pelo pai ou outro adulto, e indagado posteriormente sobre sua decisão de assumir antecipadamente o trono brasileiro, Dom Pedro II falou que foi manipulado graças a sua inexperiência e imaturidade.  Independente disso, Dom Pedro II teve uma infância difícil o que o tornou uma pessoa amarga, mas não o transformou em um tirano ou em um psicopata.  Mesmo se julgando inexperiente e imaturo, Dom Pedro II conseguiu dar estabilidade política após um período tumultuado com direito a várias rebeliões eclodindo Brasil afora.  Alguns historiadores o consideram o maior brasileiro de todos os tempos, o que não é uma unanimidade.  De qualquer maneira, é inegável o legado que Dom Pedro II deixou para o Brasil, firmando este como uma nação única apesar do vasto território.

Quase 175 anos depois da emancipação de uma adolescente para assumir um dos maiores, senão o maior “rabo de foguete” deste país, o congresso discute a questão da maioridade penal.  Como assim?  Em 1841 a população aclamou a ascensão do jovem imperador, e em 2015 87% dos brasileiros são a favor da redução desta maioridade penal.  Quer dizer que os adolescentes da época do tumultuado início do império brasileiro eram mais maduros e preparados que os atuais?  Houve uma involução social no qual estes adolescentes se tornaram pessoas inaptas de terem caráter, responsabilidade e empatia?  Claro que não.  Notadamente houve enorme avanço na estupidez e na hipocrisia de alguns sociólogos, educadores, artistas picaretas e outros que julgam que alguém como o Champinha algum dia vai poder se redimir e se tornar um cidadão de bem.  A maioria esmagadora da população sabe que crueldade e sadismo são traços que infelizmente não desaparecem quando se completa 18 anos e nem ascendendo socialmente e economicamente na vida.  Aliás, quando Champinha foi preso, vários populares, que não aparentavam nem um pouco serem sócios do Pinehiros ou Paineiras, quiseram linchá-lo.


Os políticos de partidos de esquerda ou progressistas realmente mostram estar completamente desconectados da realidade brasileira.  Se apegam a teorias do bom selvagem, como as de Jean Jaques Rousseau, e demonstram uma complacência enorme com jovens que apesar da idade, são capazes como qualquer adolescente, sabem muito bem a consequência de seus atos.  É claro que com 16 anos, muitos somos incapazes de tomar decisões sábias, mas são cientes dos limites que uma sociedade civilizada tolera.  Os que votaram contra a redução da maioridade penal deveriam ter ido na escola para estudar História do Brasil e entender sim que adolescentes são capazes de serem responsáveis, mesmo sem muita maturidade e experiência.  Espero que Dom Pedro II não esteja se revirando em seu túmulo.

domingo, 28 de junho de 2015

A Difícil Vida das Baratas



O renomado escritor austro-húngaro Franz Kafka (1883-1924) fez sucesso descrevendo estórias onde relatava os peculiares dramas dos protagonistas submetidos a situações absurdas como processos no qual sequer sabiam da acusação (O Processo, 1925) e até se transformarem em insetos gigantes (A Metamorfose, 1915).  Nesta última obra, existe até hoje um debate sobre qual inseto o protagonista Gregor Samsa se transforma, embora exista uma crença disseminada que foi uma barata.  No Brasil após o finado grupo Inimigos do Rei ter criado a “pérola” musical “Uma Barata Chamada Kafka” em 1989, essa crença foi consolidada.  Alguns estudiosos consideram que na verdade Samsa tenha se transformado em um besouro.  A discussão entomológica se Samsa havia se tornado ou um blatódeo ou um coleóptero é bizantina, mas necessidade desta é representativa do que o termo kafkiano significa, sendo que este se estende até outras situações cotidianas no qual indivíduos enfrentam principalmente a burocracia.

Talvez se Kafka tivesse conhecido o Brasil, ou outro país infestado de insetos burocratas mais danosos que as baratas, talvez repensasse suas obras literárias ou simplesmente tivesse mais inspiração para escrever o triplo de estórias que escreveu!  Nós gostamos de criticar o governo em todas as suas instâncias pela sua lerdeza intrínseca e quantidade de procedimentos criados por indivíduos sem o menor comprometimento em facilitar a vida alheia.  Basta acompanhar as atividades padrão de qualquer vereador neste país para notar que geralmente se não estou votando em mudança de nome de rua ou de praça estão criando uma lei para dificultar a vida das “baratas” (nós), isso quando não estão dilapidando o erário público!  O termo burocracia é originário do século XIX e significa o governo dos escritórios, ou simplesmente o governo daqueles que passam o dia distante do cotidiano das situações que legislam.  A burocracia é importante quando é um instrumento para análise, estratégia e organização de um governo ou uma empresa, mas jamais poderá ser o propósito final.

Gostamos de reclamar dos burocratas, mas nem sempre percebemos que muitos de nós trabalhamos em escritórios e às vezes criamos dificuldades para as baratas.  Na verdade, a mentalidade burocrata não é exclusiva do governo e empresas privadas também sofrem deste mal.  Scott Adams criador do impagável personagem de quadrinhos Dilbert foi um ácido crítico de empresas que populam em seus quadros funcionários que não geram nenhuma receita e infernizam o trabalho daqueles que geram receitas.  Um exemplo era quando o protagonista vai para o departamento de contabilidade da empresa e lá é aprisionado em um escritório que mais parecia uma galeria subterrânea das trevas com vários demônios trabalhando, e no final Dilbert se transforma em um demônio, ao invés de uma barata.  Na minha experiência profissional, e de muitos outros também, me deparei várias vezes com situações absurdas em vários graus.

Lembro de quando o departamento de desenvolvimento de processos no qual trabalhava adquiriu um medidor de umidade de grãos com o propósito de assistir os clientes da empresa no processo de secagem de grãos.  Era um equipamento caro, cerca de US$5.000,00, que na teoria deveria sempre ser transportado com devida nota fiscal.  Quando éramos chamados para visitar um cliente e avaliar o processo, o prazo para o início do serviço era curto e impreterivelmente inferior ao necessário para emissão da nota fiscal que podia demorar mais de uma semana.  Entendia que para a empresa o mais importante era a assistência ao cliente e não a conformidade à burocracia, então pedia a secretária para assinar uma autorização de saída do medidor do prédio e viajava até o cliente com este medidor em situação irregular.  É claro que não era o certo, mas a letargia da burocracia irritava, não só a mim, e o risco de uma contravenção pesava menos que o prejuízo de insatisfazer o cliente.

Em outra situação recente, um membro do departamento de TI de outra empresa que trabalhei falava sobre os procedimentos e os serviços de seu departamento para uma platéia.  Falou sobre a criação da nuvem da empresa no qual os funcionários poderiam arquivar documentos para acessá-los em qualquer computador.  Depois mencionou que a norma da empresa restringia somente à gerência o acesso aos drives USB nos computadores da empresa para evitar que arquivos sensíveis fossem copiados em dispositivos externos.  Foi quando um colega fez a pergunta que passou pela cabeça de todos: por que essa proibição se o funcionário poderia simplesmente mandar o arquivo para a nuvem?  O sujeito gaguejou e foi incapaz de fornecer uma resposta, disse que teria de rever os procedimentos internos.  Na verdade, além da nuvem, os funcionários podiam enviar por e-mail qualquer arquivo sensível para qualquer endereço eletrônico!  Mas a proibição de acesso aos drives USB servia para dificultar recebermos arquivos de clientes e fornecedores que eram importantes ao trabalho diário.

Estes são dois exemplos, e tenho outros, de que a burocracia não pode ditar o ritmo de atividades diárias e nem ser um convite para que as pessoas a burlem simplesmente para poderem exercer suas atividades diárias.  É difícil dizer se um burocrata dificulta às vezes a vida alheia por instrução de um superior, ou simplesmente porque não se importa mesmo, ou até porque se satisfaz criando dificuldades e exercendo autoridade sobre outros.  Uma empresa onde a burocracia se torna cada vez mais pesada, confusa e lenta é uma empresa que sofrerá em várias frentes com perda de competitividade, aumento de custos e até com fuga de bons funcionários para outros empregos.  Em suma, o mercado pune severamente aqueles que julgam que criar procedimentos é o âmago de qualquer negócio, ao invés de bons produtos e serviços. 

E esta é uma razão para qual os governos deveriam ser mínimos e a maioria das estatais deveriam ser privatizadas.  Quem já trabalhou com a Petrobras sabe que ela têm, infelizmente, várias outras atividades além de extrair e refinar petróleo, sendo que uma notória é a publicação de normas de engenharia, construção, etc.  Algumas delas são até boas e úteis, mas conheço pessoas dentro da Petrobras que já me falaram que até os funcionários procuram burlar algumas normas mas tem medo de fazer isso e tentam empurrar a responsabilidade da rebeldia para outros.  O curioso é que já presenciei empresas privadas adotarem informalmente as normas Petrobras em suas atividades.  Por mais útil que isso possa ser em devidas oportunidades é um risco de incentivar uma desnecessária burocracia.

Governos devem ser enxutos pois justamente carecem do incentivo de serem “simplificados”, se a burocracia afetar o desempenho do governo (déficit primário), há sempre a opção de aumentar os impostos ou criar moeda gerando inflação.  A estabilidade do emprego de funcionários públicos, apesar de ter sido elaborada por boas intenções, dificulta uma reestruturação da burocracia oficial e incentiva muitos destes a não procurarem melhorar os serviços prestados.  É claro que existem exemplos onde o governo melhorou e muito os seus procedimentos, mas no geral o Brasil tem muito o que caminhar.  É difícil explicar a um estrangeiro o que é um despachante e que um cartório pode ser um negócio lucrativo.

Nós as baratas sofremos com este cotidiano de dificuldades criadas, muitas vezes sem se saber o porquê delas simplesmente existirem.  Mas é bom reconhecer que quase todos temos uma propensão a criar dificuldades e temos de ser incentivados a agir de maneira contrária.  Qualquer sociedade que incentivar em demasia seus membros a se tornarem criadores de procedimentos é uma sociedade que taxará estes com perda de de produtividade e tempo, sem contar a drenagem de bons profissionais que podem ficar tentados a deixar empregos produtivos por uma burocracia lucrativa.