quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Celebrando o Samhain

A popularização do Dia das Bruxas nessas terras é recente, lembro que há uns 10 anos atrás, um punhado de crianças tocou a campanhia do meu apartamento para proferir "Travessuras ou Gostosuras".  É mais ou menos a época que comecei a ouvir as críticas dos mais nacionalistas que estávamos adotando uma festa americana (ou estadunidense) em detrimento do nosso folclore nacional.  Só digo que esse povo cansa.

Em 2003, foi apresentado um projeto de lei para a criação do Dia do Saci a ser celebrado no 31 de outubro, ou seja, concorrendo diretamente com o Dia das Bruxas, popularmente conhecido pelo seu nome inglês Halloween, uma corruptela de All Hallow's Eve, ou simplesmente a véspera do Dia de Todos os Santos.  Até mesmo se tornou lei estadual em São Paulo e a cidade de São Luiz do Paraitinga incorporou este dia no calendário de festividades daquela cidade turística.

Muitos historiadores concluem que o formato do Halloween é o resultado do sincretismo religioso do cristianismo com religiões pagãs celtas.  As comemorações da véspera do Dia de Todos os Santos teriam absorvido vários rituais pagãos incluindo o celta Samhain, no qual se observava o fim da época da colheita.  Os celtas faziam oferendas aos espíritos no Samhain para que pudessem sobreviver a metade mais sombria do ano, o outono e inverno no hemisfério norte.  Alega-se que os escoceses e irlandeses se vestiam como espíritos para obter estas oferendas, ou talvez para enganar os próprios espíritos.

Nota-se que o Halloween é, portanto, uma comemoração celta, perpetuada por seus descendentes, escoceses, irlandeses e galeses, que foi absorvida pelos americanos, já que povos de origem celta, em específico os irlandeses, emigraram em massa para os Estados Unidos.  Esse país popularizou a comemoração para o resto do mundo, mas não o criou.  Da mesma maneira que os italianos não inventaram a pasta, mas popularizaram a invenção chinesa na Europa. 

O Brasil é um país cuja grande parcela da população tem ascendência europeia e que observa o cristianismo.  O Saci tem origem em mitos tupis-guaranis e foi modificado segundo historiadores pelos escravos brasileiros, daí ter se tornado uma criança mulata.  Apesar de ser uma das lendas mais populares do Brasil, o saci não tem um apelo tão forte no próprio Brasil quanto aos costumes celtas popularizados nos EUA.  Todas as minorias merecem respeito, mas a maioria merece igual respeito.  Impor uma data sem nenhum significado, pagão ou cristão, baseado numa figura de significado tênue para muitos é uma idiossincrasia.

No dia 31 de outubro, as crianças brasileiras não estão interessadas em saci e apesar de leis criadas, o Halloween ganhou força aqui.  Pode-se alegar que o brasileiro tem complexo de inferioridade e desprezo pelas próprias tradições, mas acredito que simplesmente o Halloween é um evento bem mais divertido e melhor comercializado que qualquer alternativa criada nestas bandas para o Dia das Bruxas.  Melhor teria sido tropicalizar o Halloween colocando o saci como uma opção para as crianças se fantasiarem.  Outros feriados cristãos, como Carnaval e as Festas Juninas, ganharam bastante força aqui no Brasil sendo tropicalizados.  Já o Thanksgiving, ou Dia de Ação de Graças, um dos principais eventos do calendário americano, tem uma importância mínima aqui, uma prova que não importamos tudo da terra do Tio Sam.

Os mais católicos, além de outros cristãos, reclamam que o Halloween é um rito pagão que celebra algumas figuras "pouco cristãs" como Satanás e Drácula.  Respeito quem opta por não prestar nenhum tipo de reverência a estes tipos de figuras, mas há de se dar crédito ao bom senso dos pais das crianças fantasiadas a caráter e também das crianças que crescerão sem se tornarem adoradoras do oculto.  E quanto ao Halloween ser um rito pagão, pergunto onde exatamente na Bíblia está a explicação para o Natal ter as renas de Papai Noel e para o coelho ser o personagem principal da Páscoa?  Esse povo também cansa.

No fim das contas, o crescimento do Halloween no Brasil mostra que ainda tem muita gente sem o que fazer e que decretos tentando moldar os gostos das pessoas são fadados ao mais retumbante fracasso.  Não lembro de ninguém comemorando Dia do Saci aqui no meu prédio!  De qualquer maneira, o Saci continua popular entre os fãs do Monteiro Lobato e a torcida do Internacional.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Dilema da Daslu

Uma vez, me convidaram mais a minha esposa para fazermos compra na Vila Daslu, aquele shopping onde se comercializava produtos para as classes mais abastadas.  A minha resposta seria que eu iria de tênis velho, calça de camuflagem e camiseta do Che Guevara.  O meu sarcasmo não foi bem apreciado, porém, não deveria ter respondido daquela maneira.  O convite por si próprio era absurdo, pois jamais fomos propensos a gastar uma significativa parcela do salário em vestuário de ostentação.  Deboche à parte, vestir qualquer roupa que homenageie um genocida é um profundo desrespeito com as vítimas da sanha assassina de um falso herói cultuado por ignorantes de sua verdadeira história. 

Não ficaria surpreso se visse um ex-frequentador da Daslu vestindo uma camiseta do Che Guevara, até mesmo se fizesse isso dentro da própria Daslu ou atualmente em algum local frequentado pela mais alta classe da sociedade.  É a famosa Esquerda Caviar, debatida extensivamente por vários, que gosta de ostentar, mas diz se preocupar com os mais pobres.  Esse posicionamento sempre me deixou perplexo, ou deriva de culpa ou de inveja daqueles que têm ainda mais dinheiro, afinal a inveja não é um sentimento exclusivo aos mais pobres.  Os membros da Esquerda Caviar que gostam de vestir bonés e camisetas com o rosto do Che Guevara, invariavelmente se esbalda com roupas caras, carros de luxo e festas nababescas.  E ainda por cima, em mais um sinal de estranheza, gostam de ter um reconhecimento alheio pela riqueza que acumulam.

O monumento à ostentação que foi a Vila Daslu na Vila Olímpia realmente chocava, apelando tanto para a cobiça como para a inveja de quem não a frequentava.  Para mim era algo desnecessário, sendo que lojas nos Jardins Paulistano e no Shopping Iguatemi eram os verdadeiros rivais da Daslu de Eliana Tranchesi e atraíam sua clientela sem a ostentação escancarada concebida por Tranchesi.  Em uma cidade com um alarmante índice de criminalidade, a pior coisa é pintar um alvo nas costas sinalizando que tem dinheiro de sobra.

Claro que surgiram as críticas lá em 2005, quando a marca Daslu ergueu seu elefante branco à beira da Marginal Pinheiros.  Os "politicamente corretos (chatos)" alegavam que aquele elefante branco era uma afronta a todos os desfavorecidos.  Ou usaram este termo ou outro politicamente correto (imbecil) para criticar que os mais pobres, e até alguns menos ricos, não poderiam comprar calças jeans de mais de 5 mil reais.  Desdenhar da Daslu e de quem frequentava a Daslu era até divertido, mas ficava a curiosidade de como seria lá dentro e até como seria usar um dos produtos lá comercializados.

Muito pode ser dito a respeito de como o dinheiro afeta a vida das pessoas.  Existe o tal estudo, mal-interpretado por alguns, do economista Angus Deaton e do psicólogo Daniel Kahneman que afirmam que para salários acima de US$75.000,00 anuais, o dinheiro não aumenta a satisfação pessoal.  Independente do que estes pesquisadores quiseram inferir, dinheiro resolve uma miríade de problemas que a falta de dinheiro causa.  É da natureza do ser humano ambicionar o que os outros têm, como já diria a letra da música Sit Down do grupo inglês James "If I hadn't seen such riches / I could live with being poor".

Duas atitudes podem decorrer destas ambições, a primeira é aquela mais mesquinha propagada pela ala mais estúpida da esquerda mundial que é a de desdenhar da riqueza alheia e de como ela foi obtida, acusar os ricos de crimes por serem ricos e de toda sorte de males que afligem a humanidade.  Essas atitudes justificam a criminalidade sempre com o intuito corrigir injustiças sociais, seja lá o que isso realmente quer dizer, se apoderando da riqueza alheia.  Essa ala local da esquerda usa essa retórica para poder se eleger e de Brasília assaltar a riqueza alheia em larga escala.

A segunda atitude, mais construtiva, é a de a pessoa criar incentivos para si próprio para atingir este patamar de preferência pelo trabalho honesto.  Às vezes, esse tipo de ambição, é claro, resulta em trabalhos menos do que honestos.  Nações ricas e prósperas são motivadas pela vontade de seu povo de atingir patamares econômicos superiores aos atuais.  O declínio destas nações decorre de situações onde há acomodação ou, pior, usurpação da riqueza alheia, muitas vezes camufladas de impostos crescentes sobre os mais ricos e até de programas sociais de distribuição de riquezas.

O exemplo clássico é dado pelas nações alemã e japonesa que foram arrasadas após a derrota da II Guerra Mundial em 1945 e se reconstruíram.  Os asiáticos ainda sofreram os singulares ataques nucleares dos americanos e revidaram obrigando décadas depois o povo dos EUA a comprarem televisores da Samsung e a dirigirem carros da Toyota.

É claro, que há um terceiro grupo, bastante numeroso, que são aqueles que são indiferentes à opulência alheia.  Talvez esses sejam acometidos de um pouco de inveja ou vontade de exibir riquezas que não tem, mas esse sentimento não é dominante nestas pessoas.  Os que são completamente indiferentes são casos à parte, possivelmente são mais ricos que os antigos frequentadores da Daslu, sustentados pelo dinheiro alheio ou quem sabe são pessoas mais evoluídas espiritualmente.

Daquela época da Daslu se impondo na Marginal Pinheiros, lembro de um punhado de gente rica que não perdia a chance de ser desagradável ao exibir ostensivamente o que tinham para o resto da cidade, e mais ainda de um bando de gente chata e desocupada que ao invés de se preocuparem com seu trabalho ou as contas para pagar resolviam desdenhar da riqueza alheia.  No fim, veio a Operação Narciso em 2010, e a Daslu abandonou o elefante branco para voltar a ter a discrição necessária.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

50 Tons de Flicts

O livro infantil "Flicts" do escritor Ziraldo foi editado pela primeira vez em 1969.  Descrevia os augúrios de uma cor que tentava descobrir sua identidade, até que ao final da estória se identifica com a cor do solo lunar, em suma "A Lua é Flicts!".  Na minha terceira série, há mais de 30 anos, encenamos uma peça da estória e, é claro, que como vários alunos quis ser Flicts, mas acabei com o papel do Laranja.  Nem cor primária consegui ser para minha decepção...

Naquela época, eram apenas 5 partidos, PDS, PTB, PT, PDT e PMDB, sendo que o primeiro e o último disputavam a hegemonia política brasileira, elegendo 22 dos 23 governadores na eleição de 1982.  O Brasil caminhava a passos constantes para sua redemocratização, sendo que o PDS abrigava os políticos aliados aos governantes militares e o PMDB englobava uma oposição amorfa e heterogênea, mas com amplo e crescente apoio popular.  O PT ainda não tinha a dimensão que atingiu no seu auge, mas apesar de não ser levado tão a sério, já assustava pelo radicalismo de suas propostas.  Curiosamente, o PT se aliou aos demais 4 partidos em vários momentos de seus quase 14 anos de governo, levando em conta que o PDS é o atual PP após várias mudanças de nome.  Eis a definição de fisiologismo.

Os tempos não eram fáceis no início daquela década, a inflação era altíssima, havia escândalos de mau uso de empréstimos subsidiados, o grau de endividamento da nação era exorbitante, a nossa indústria era sucateada devido ao alto grau de protecionismo e Brasília já era Brasília desde então.  Em muitos aspectos, os tempos eram tão ruins ou piores que agora.  Olhando sob esta ótica, é muito fácil se tomar pelo pessimismo, ou no mínimo pelo ceticismo quanto ao que virá pela frente.  Michel Temer apresentou um discurso no qual pelo menos faz um diagnóstico correto da atual situação e propõe atitudes contrárias àquelas de Dilma.  O problema é que Temer é cercado de políticos do pior naipe possível, alguns sobreviventes do final da ditadura e do início da redemocratização.  Basta ver que Renan Calheiros é líder do senado, tendo estado em posição de eminência no congresso há muito tempo.  O próprio Temer sempre esteve nessa posição, inclusive de aliança com governos anteriores.  O lema do PMDB parece ser "Hay gobierno soy a favor"!

Recentemente, muito se discutiu sobre as tendências de esquerda da maioria dos partidos brasileiros e de muitos congressistas.  Um post chamava o espectro partidário brasileiro, hoje em mais de 30 partidos, de "50 tons de vermelho".  É claro que há políticos presos a ideologias esquerdopáticas como Dilma, uma ex(?)-guerrilheira marxista, mas a maioria não é comunista exatamente, e sim criminosa e parasita, como vários políticos do próprio PT.  Quando se observa a existência do Partido Nacional Corinthiano, do Partido Ecológico Nacional e outras aberrações similares, a minha conclusão é que o espectro partidário brasileiro é formado por "50 tons de Flicts".  Enquanto a maioria dos brasileiros têm cores primárias ou secundárias, os habitantes de Brasília têm cores únicas e especiais.

Brasília parece existir em um mundo paralelo, como um planeta distante, uma dimensão paralela ou o mundo da lua mesmo, onde as regras aplicadas a nós não são válidas.  A conexão de Brasília com nossa realidade não é feita por rodovias ou por aeroporto e sim pelo verdadeiro sorvedouro do nosso dinheiro criado lá, resultando em leis e burocracias kafkianas.  A crise brasileira pode ser facilmente resumida em uma estatística, o PIB per capita do Distrito Federal é o maior de uma unidade federativa do Brasil e quase o dobro do segundo lugar, o estado de São Paulo.  É também simplesmente entre as principais cidades da América Latina, o maior PIB per capita.  Não é necessário recorrer a mais estatísticas para notar que o parque industrial e de serviços candango é medíocre e que a grande atividade de Brasília é a burocracia e o funcionalismo público, para não dizer corrupção.  A crise não atingiu tanto o Planalto Central pois o funcionalismo público é protegido por lei, às custas dos demais cidadãos, e os políticos detêm o poder de votar nos próprios salários.

Isso tudo não é novidade para a grande maioria da população brasileira, cansada da classe política, mas eleitora desta.  O problema é que estes "selenitas" que habitam o mundo da lua de Brasília são necessários para que se aprovem as reformas necessárias para tirar o país do atoleiro.  Como convencer um deputado, preocupado com sua reeleição em 2018, que as reformas previdenciária e trabalhista são mais do que cruciais, sem arriscar perder eleitores que tem medo dessas reformas?  Como fazer uma reforma tributária, sem que os governadores e prefeitos esperneiem com possíveis perdas de receitas?  E principalmente, como fazer uma reforma política, não aquela proposta por Dilma, que possa permitir que outras cores possam ser inseridas no espectro partidário político brasileiro?  Quem souber me avise.



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Daqui para Frente

Ufa! Escapamos do cataclisma, que seria a reintegração da posse de uma chefe de nação sem a menor noção do que fazer, sem apoio para qualquer medida que viesse a tomar e, pior, com o histórico de atitudes que no curto, médio e longo prazo jogariam o Brasil para um precipício profundo.  Ou alguém não conhece a realidade desesperadora de nações como Venezuela e Cuba que tinham a admiração da cúpula do finado governo?  Mas colocar o último prego no caixão político de Dilma Rousseff não é suficiente para tirar o Brasil da crise ou até mesmo fazer que adentremos uma espiral virtuosa rumo ao desenvolvimento.  Nem Michel Temer, que por ser vice na chapa de Dilma por duas vezes mostra um grau preocupante de compactuação com os absurdos desta, será o responsável por nos guiar a "Terra Prometida".

Quem então nos guiará através do deserto da crise?  Aécio?  Marina?  Bolsonaro?  Nenhum deles, essa travessia cabe a todos nós, sem exceção.  Uma vez discutindo com um amigo na época de graduação, ele argumentou que o Brasil precisava de uma liderança que nos inspirasse para sermos melhor, porém argumentei que precisávamos nós mesmo sozinhos tomarmos a atitude necessária para engrenar.  Qualquer trabalhador que precise de um "grande líder" como chefe para fazer seu trabalho direito está precisando mesmo de um outro emprego ou repensar suas atitudes.  Será que nós como cidadãos precisamos de um grande presidente para fazermos a nossa parte?  É claro que, quando vemos nosso dinheiro de impostos ser gasto com MST, UNE, Porto de Cuba, ascensorista do senado e outros sorvedouros inúteis e imorais, fazer nossa parte é difícil, mas ainda é necessária.  Boas lideranças nos contagiam para darmos o nosso melhor, mas nem sempre isso é verdade.

Aqui uma boa liderança é considerada aquela que fornece uma miríade de benesses a seus liderados, dinheiro, saúde, dinheiro, moradia, tudo de graça.  Primeiro que não é de graça, já que nossa carga tributária beira os 40%, e então o brasileiro precisa entender que esta gratuidade custa é muito caro.  A quantidade de candidatos prometendo tudo isso para o povo só não é maior que os eleitores que exigem dos governantes essas gratuidades.  Prepotência minha à parte, quem quer moradia de graça e dinheiro fácil que vá ao Programa do Sílvio Santos!  O brasileiro precisa é arregaçar as mangas para conseguir o que quer.  Só tiramos Dilma do governo, pois fomos aos milhões para a rua pedir isso.  Saúde e educação são itens que podem ser considerados investimentos nos cidadão, então é um debate separado.

Essa mendicância endêmica serve de alimento para governantes populistas que prometem os céus para seus eleitores.  Só que o pedágio cobrado por esses é ineficiência e corrupção.  Mais dinheiro, o brasileiro vai ter quando o mercado de trabalho estiver mais aquecido resultando em mais empregos e maiores salários, menores custos para moradia vão vir com juros menores devido a uma redução do déficit público, materiais de construção mais baratos com uma profunda melhora da eficiência das nossas cadeias de produção, etc.

E o brasileiro precisa também se emendar em relação a sua moralidade, vide a notória carta de Mark Mason.  Observo que nos últimos tempos existe uma crescente intolerância contra aqueles que cometem delitos, mas a turma das "vítimas das injustiças sociais" é bem resistente e altiva.  E para piorar muitos de nós temos telhados de vidro.  A nossa conivência com pequenos (e não tão pequenos) delitos como sonegação de impostos, compras de produtos piratas, dinheiro para cervejinha dos guardas, entre outros, é inaceitável.  Esse tipo de conivência é a semente da corrupção, poucos nascem 100% pilantras, mas vão lentamente chegando a esta porcentagem.  O combate à corrupção tem duas etapas, a primeira é se extirpar os corruptos do poder e puni-los, a segunda é evitar que novos corruptos substituam os antecessores.

A pior desculpa possível para se cometer delitos é que outros cometem, ou que isso é justificável pois os delitos são contra os mais ricos.  E aí reside um grande mal do brasileiro, é culpar sempre os mais ricos.  Isso seria correto se esses ricos considerados fossem os políticos com seus salários e benefícios nababescos, porém o brasileiro gosta de apontar o dedo para a burguesia e o empresariado.  Pobre, operário, classe média, burguês e empresário estão todos no mesmo barco.  Ou trabalhamos juntos para mudar o futuro, ou já em 2018, outro populista corrupto é eleito para colocar o Brasil no rumo do cataclisma.

sábado, 30 de julho de 2016

A Muralha de Trump

Em 122 DC, o imperador romano Adriano construiu a famosa muralha em solo britânico que leva seu nome, a Muralha de Adriano.  A razão para a construção de tal fortificação é atribuída à necessidade de proteger os territórios romanos na atual Inglaterra contra invasões bárbaras como as realizadas pelos pictos.  Porém, este é um ponto de questionamento, uma vez que a obra em questão se localizava ao sul de áreas controladas pelos romanos.  A muralha tinha cerca de 120 km de extensão, altura e profundidade variando de 3 a 5 metros.  Essa obra foi precedida 20 anos depois pela muralha de Antonino, imperador romano e enteado de Adriano, localizada mais ao norte da mais famosa muralha e com cerca da metade da extensão da obra de seu padrasto. A muralha de Adriano serviu de inspiração até para a obra "As Crônicas de Gelo e Fogo" de George Martin.  Indago se essa muralha também serviu de inspiração para a promessa de campanha do candidato republicano Donald Trump à presidência americana.

Claro que Trump pode também ter se inspirado na Grande Muralha da China, obra ainda mais famosa que às romanas com extensão na casa dos milhares de quilômetros e cerca de 300 anos mais antiga.  Ou no infame Muro de Berlim criado para aprisionar alemães dentro do regime socialista imposto pelos soviéticos.  Ou ainda no polêmico Muro da Cisjordânia, que na verdade é composto em parte por cercas de arame farpados, criado ou para impedir terroristas palestinos de adentrarem território israelense, segundo israelenses, ou para Israel expandir as suas fronteiras dentro de território palestino, segundo os que são contra Israel.

O que difere a Muralha de Trump das demais fronteiras físicas artificiais é que esta tem o intuito de criar uma barreira entre dois países de relativo bom relacionamento com extensos laços econômicos, comerciais e culturais.  A Muralha de Trump se estenderá pelos quatro estados americanos, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia, que tem fronteira com o México.  Sim, o país latino tem graves problemas sociais além de parte do território ser infestado e dominado por cartéis de narcotráfico, mas o mexicano não é nenhum bárbaro que pilhará Washington ou terrorista que se explodirá em pleno Central Park.  Sem contar que os criminosos mexicanos já fazem uso de túneis em cidades fronteiriças (San Diego / Tijuana e El Paso / Ciudad Juarez) e até de submarinos para burlarem a fronteira entre os dois países.  Indago se caso Trump chegue realmente à Casa Branca, se tal projeto realmente não seja vetado pelo Congresso.

Recentemente, estive trabalhando em Michigan, estado americano com alta taxa de desemprego e até mesmo decréscimo populacional em seu grande centro urbano de Detroit, e ouvi algumas críticas aos sindicatos locais.  Um gerente de uma planta elogiou os trabalhadores mexicanos por estarem dispostos a trabalharem mais e melhor do que os americanos, que fazem questão de usar os sindicatos para imporem condições aos empregadores.  Claro que existem empregadores que abusam e exploram da agonia dos imigrantes para imporem condições trabalhistas abusivas, mas é inegável que os sindicatos americanos prejudicam o mercado de trabalho americano.  Ao invés de construir uma nababesca muralha, Trump poderia rever as relações trabalhistas.  Mas aí surge o problema é que o trabalhador americano sindicalizado vota e o imigrante ilegal não...

Outra proposta é a de se proibir (ou dificultar) a entrada de muçulmanos nos EUA.  Entendo que é uma afronta à Constituição Americana, mas isso é um tema para debate mais extenso.  Trump depois aparentemente recuou dizendo que barraria somente os muçulmanos de países comprometidos com o terrorismo.  Como o próprio Bush filho disse após os ataques de 11 de setembro de 2001, os EUA tinham sido atacados por um covarde sem face, isto é o terrorismo não tem uma bandeira identificável.  Fala se até em dificultar a entrada de franceses e alemães, países que segundo Trump foram permissivos com a entrada de terroristas e, portanto, sofrem agora com este problema. 

Qualquer candidato que se promova por propostas tão polêmicas e as apresente como soluções simplistas para problemas complexos deve ser observado com cautela.  Quando o Levy Fidelix se baseia em um programa como a canalização do Rio Tietê e a construção do aerotrem, ele é engraçado pois não tem chance de vitória, mas usa do nosso dinheiro para promover esses absurdos.  Trump assusta pois lidera as pesquisas de intenção.  E fica a questão do que Trump realmente planeja fazer caso ganhe a eleição.

Suas propostas na área de saúde e de educação não são nada absurdas e sob certa ótica até mesmo sensatas, mas há outras que assustam bastante, mais até que a construção da Muralha de Trump.  O discurso de dificultar estrangeiros de trabalhar nos EUA servirá para que outros países contratem bons profissionais estrangeiros, assim alavancando empresas não-americanas e criando uma considerável penalização às americanas.  Os EUA possuem um formidável contingente de profissionais capacitados, mas historicamente sempre atraiu profissionais estrangeiros altamente capacitados que ajudaram o país a ser a potência que é.

Também assusta o discurso de punir empresas que resolvam transferir suas linhas de produção para outros países.  A ameaça de Trump de punir a Apple caso esta produza o iPhone fora dos EUA é benéfica para companhias estrangeiras que poderão se valer de produzir um telefone celular mais barato e no futuro comercializá-lo a preços mais competitivos em território americano e estrangeiro.  Ou será que Trump irá sobretaxar produtos de alto valor agregado?  Se Trump soubesse o que foi a Lei da Informática no Brasil!

Isso sem contar as mais bravatas de impor restrições aos chineses, esquecendo que estes têm alto grau de entrelace comercial com os EUA e de participação no mercado financeiro, inclusive financiando a dívida americana.  É de arrepiar pensar uma reunião entre Trump com o déspota ardiloso Vladimir Putin.  Para aqueles que não nasceram durante a Guerra Fria, este é um pensamento sombrio.

A história nos ensina que movimentos migratórios podem ser catastróficos para algumas nações, mas o que Trump propõe não é solução e pode em um curto prazo resultar em algumas melhoras para os americanos.  No longo prazo, esse tipo de postura tem um custo alto.  A última coisa que se quer são os EUA abraçando um populismo raso, xenofobia e isolamento.  Não é benéfico para o mundo civilizado e não se conhece nações que tenham prosperado nessas condições.


sábado, 25 de junho de 2016

A Catástrofe Britânica

Os fãs de ficção científica e leitores as obras de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke vão lembrar que na maioria das estórias a raça humana e a Terra eram unificadas em uma única nação.  A série Jornadas das Estrelas vai então além, cria um universo no que não só essa unificação é consolidada na forma de uma utopia esquerdista onde não existe miséria, todos são felizes e o dinheiro foi abolido, mas como ela é expandida para outros planetas habitados por outras raças, como os vulcanos.  Todos eles vivendo de acordo com o American Way of Life.  Até Babylon 5 abraçou esse conceito, menos utópico, mas com as unidades imperiais não sendo substituídas pelas métricas e com o beisebol sendo mais popular que o futebol em Marte.

Viagens interplanetares, inteligência artificial, robótica avançada, contato com alienígenas e outros conceitos futuristas talvez só sejam atingidas daqui a séculos, mas a unificação da raça humana na Terra sob uma única nação deve demorar mais que estes.  O Brexit é a prova da dificuldade de se obter esta união, apesar de grandes avanços feitos nos últimos séculos e contínuos esforços para um maior entendimento entre os diferentes povos.  Os cidadãos do Reino Unido resolvem regredir um pouco mais no caminho desta maior união, mostrando que o ser humano tem resquícios sim de desconfiança dos seus vizinhos e que um sentimento saudável de nacionalismo se degenera facilmente em uma tendência ao isolamento.

A história da humanidade é repleta de exemplos em que povos mantiveram por séculos um ranço que resultaram em guerras, diásporas e movimentos separatistas.  O Canadá, por exemplo, em 1995 esteve muito próximo de se separar em dois, numa demonstração que mesmo em um país rico e com sólidos fundamentos democráticos, o conceito de união entre povos diferentes pode ser fugaz.  Mas um dos mais marcantes eventos é a Catástrofe.

Gregos e turcos nunca se deram.  Por séculos na Idade Média, os gregos do Império Bizantino travaram uma árdua e ineficaz batalha para conter primeiro o avanço dos turcos seljúcidas e depois dos turcos otomanos.  Antes mesmo da queda de Constantinopla em 1453, os bizantinos já estavam em acentuado declínio e foram subjugados pelos turcos por quase 400 anos.  Durante o jugo otomano, gregos e turcos não se miscigenaram muito, mas suas populações se misturaram consideravelmente.  Cidades como Constantinopla, Adrianópolis, Esmirna e Tessalônica eram habitadas por turcos e gregos em razoável harmonia.  Com a independência da Grécia em 1829, a tendência foi a de se piorar as relações entre estes povos.

Mas até o início da I Guerra Mundial, gregos e turcos ainda coabitavam as mesmas cidades, sendo estas em território grego ou turco.  Como o Império Otomano se uniu aos Poderes Centrais liderados pela Alemanha, houve receio dos turcos que os gregos morando dentro das fronteiras otomanas viessem a se tornar insurgentes.  O resultado foi o início da expulsão de vários gregos de território otomano e por fim o genocídio grego que só foi interrompido com a derrota otomana para os Aliados no final da guerra.  A Grécia sentindo a fraqueza de seus adversários, invadiu em 1919, um ano após o fim da I Guerra Mundial, o Império Otomano no intuito de se reconquistar territórios que historicamente pertenceram aos gregos.  Essa guerra local terminou em 1922 quando os turcos rechaçaram todo o avanço grego.  Ao fim desta guerra, o Império Otomano tinha sido dissolvido e a República da Turquia formada, mas havia o problema que mesmo com o genocídio grego, ainda haviam bastante gregos em território turco, e vice-versa!

A resolução para aquela situação é conhecida como a Catástrofe da Ásia Menor, no qual as populações turcas e gregas em territórios opostos foram deportadas simultaneamente.  A definição de quem era turco ou grego era baseada praticamente na religião do cidadão.  Apesar do jugo turco muçulmano sobre os gregos ortodoxos, os primeiros sempre foram tolerantes com a crença dos segundos.  Cerca de 300 mil gregos ainda permaneceram em Istambul, novo nome de Constantinopla, mas gradualmente foram forçados a emigrarem para a Grécia devido a perseguições dos habitantes locais e do próprio governo turco.  Apesar de Grécia e Turquia terem fechado um acordo de compensação entre os dois países, o prejuízo individual de cada um dos deportados é incalculável.  Gerações de cidadãos de repente se viram na situação de deixarem suas cidades natais para emigrarem para uma terra até um certo ponto estranha, praticamente sem bens e com um futuro incerto pela frente.  Cidades inteiras na região da Anatólia foram abandonadas, causando certo prejuízo à economia turca.

Não consigo vislumbrar os britânicos agindo como os turcos fizeram no passado, mas com certeza o Brexit vai causar problemas graves.  Milhares de trabalhadores estrangeiros com passaporte comunitário participando ativamente da economia britânica se encontraram da noite para o dia em uma situação à priori irregular.  Empresas alemãs, francesas, italianas, etc. em solo britânico, que empregam britânicos, também terão dúvidas de como a situação destas ficará.  Ninguém em sã consciência promoverá deportações em massa ou confiscos de propriedades de estrangeiros, mas espere um gasto enorme com advogados e burocracia para se resolver essa situação.  E esta deve ser regularizada rapidamente, pois sempre haverão os aproveitadores tentando obter lucro da confusão inicial.  O problema é que qualquer solução justa e sensata demorará para ser atingida.

Na antiguidade, a extensão de uma nação era limitada basicamente pela capacidade de se mobilizar tropas e distribuir alimentos em todo o território.  Com os avanços tecnológicos, essa capacidade foi aprimorada permitindo que as nações se tornassem mais íntegras e extensas.  Industrialização, globalização, integração das cadeias de suprimento, parcerias de pesquisa entre outros fatores contribuíram para que desde o fim da II Guerra Mundial não houvessem mais conflitos entre os principais atores do cenário político mundial.  Sim, é claro que EUA e URSS não chegaram "as vias de fato" pelo temor da destruição mútua também.  Mas houve avanço notáveis desde então no quesito de integração entre as nações.

Mas o que impressiona, é que mesmo apesar de todos estes avanços, continuamos suspeitando de nossos vizinhos, às vezes com razão mesmo.  Quanto mais fragmentada for a humanidade, mais difícil será a resolução de problemas que espreitam no horizonte, como escassez de recursos naturais.  Aliás esse é um bordão repetido por vários que no instante seguinte criticam americanos, argentinos, russos, japonenses, ou seja lá quem for a vez de serem criticados.  Basta esse vizinho falar uma língua diferente, ter uma religião diferente ou não parecer conosco.  Gregos e turcos ainda brigam hoje por território no Mediterrâneo, mesmo ambos sendo membros da OTAN.  É difícil mesmo...


terça-feira, 31 de maio de 2016

A Rotação da Terra e o Burro na Sombra

Tentei mas não descobri de onde vem a expressão “amarrar o burro na sombra”.  Mas o significado é bem conhecido.  É o de estar com a vida ganha.  O detalhe é que muitos esquecem que devido à rotação da Terra, as sombras mudam de lugar durante o dia, o que pode ocasionar em o equídeo em questão ficar exposto ao sol.  Conheço alguns amigos e colegas que mesmo sabendo do “deslocamento do Sol no horizonte”, não se preocupam em procurar novas sombras.  Alguns se queimam, outros conseguem sobreviver a este momento de exposição passando certo sufoco.

Ao visitar uma fazenda de crocodilos na Austrália, lembro-me do guia falar que os crocodilos faziam basicamente duas coisas: armazenar energia e se reproduzir, o que ele admitiu serem as suas favoritas.  Podemos extrapolar para boa parte da população que existe uma tendência natural de procurarmos nos acomodar ao longo do tempo.  Outros não conseguem sequer imaginar a sua vida resumida a estas atividades prosaicas, precisam estar sempre progredindo ou sentindo que estão progredindo, apesar de poderem estar estagnados.  Esses diferenciados são necessários à civilização, pois graças a estes, negócios são gerados, avanços científicos são desenvolvidos e empregos são criados.

Mas e os demais que querem “armazenar energia”, o que os leva a se acomodarem?  Apesar de todo guru de RH tecer uma miríade de conceitos do que deve ser feito para se progredir na carreira, a verdade é que muitos não querem ou não enxergam nisso uma prioridade.  Um bom supervisor não necessariamente quer ser um gerente, e um bom gerente não necessariamente quer ser um diretor.  Quanto mais se ascende na carreira, mais responsabilidades serão incumbidas, mais tempo será consumido no trabalho, e mais será exigido das capacidades do profissional.  Conheço bons profissionais que simplesmente não almejam qualquer tipo de promoção, gostam do que fazem, até se dedicam mais do que o necessário.

Dois problemas surgem com esse tipo de atitude, o primeiro mais óbvio é de se expor à concorrência de profissionais mais jovens com mais ambição e menor custo muitas vezes, o que pode fazer com que a empresa promova uma “reciclagem”.  Funções com baixo grau de complexidade e na qual a experiência do profissional é pouco exigida são onde profissionais estão mais vulneráveis a serem “reciclados”.  Os acomodados algumas vezes superestimam suas importâncias em uma empresa e menosprezam a capacidade e o ímpeto de recém-formados.  Esses acomodados até não acreditam que vão se aposentar como assistentes e auxiliares, mas são tomados por uma letargia que os impedem de se mexerem.  Algumas empresas institucionalizam esses acomodados numa simbiose frágil, muitas vezes por receio de não encontrarem alguém no mercado de trabalho que possua a mesma dedicação, ou até pela formação de um vínculo emocional do patrão com o empregado.  No Brasil, esse tipo de simbiose é perigosa devido à nossa obtusa legislação trabalhista, uma vez que um funcionário antigo tem em várias ocasiões aumentos consecutivos de salário (dissídios) acima do crescimento da empresa, além do crescimento da multa rescisória do FGTS.   

O segundo problema é o de se menosprezar as lentas, mas constantes, mudanças na macroeconomia e no mercado de trabalho.  O maior erro que um funcionário pode cometer é o de se achar imprescindível à sua empresa.  Poucos são capazes de enxergar mudanças e tendências no mercado de trabalho que podem resultar até na extinção de setores da economia.  Mas a minha impressão é que menos ainda são aqueles dispostos a tomarem atitudes para se recolocarem mesmo sabendo de riscos eminentes.  Quantos bons datilógrafos perderam seus empregos quando as empresas começaram a passar a usar processadores de texto tipo Word Perfect ou Microsoft Word?  Acredito que alguns deles mesmo sabendo do avanço da informatização, não acreditaram que seriam atingidos.  Outras vezes, o sinal dos tempos não precisa ser no macro, basta ser no micro, a empresa pode estar dando sinais de que promoverá cortes, mas são poucos que buscam refúgio em águas menos turbulentas.  Preferem agonizar por meses imaginando se vão ser demitidos ou não.  Em tempos de crise como a atual, fico surpreso que aqueles que mais procuram headhunters, empresas de recolocação, agências de emprego e outros são aqueles que estão desempregados.

Procurar emprego não é uma tarefa fácil e é demorada.  Exige dedicação, tempo e também resgatar contatos para se fazer o famoso networking.  Quantos de nós, ao final do dia queremos simplesmente relaxar com a família, assistir TV e nos desligarmos do trabalho ao final do dia?  E quantos de nós iremos ao final do dia redigir currículos ao gosto de empresas e agências na esperança que dentro de meses isso resulte em uma oferta de emprego?  É mais cômodo tocarmos o dia a dia no local de trabalho e torcer pelo fim das tormentas de momento e ignorar os fatos.  Além do que, quem quer perder as férias acumuladas ou na pior hipótese perder 40% de multa do FGTS depositado?  Mesmo que o prejuízo do desemprego seja superior a multa, essas tentações momentâneas fazem com que muitos fiquem na sombra mesmo com o Sol se movendo no horizonte.

É claro que a precipitação é um mau motivador para tomarmos atitude, às vezes passamos de um emprego com situação momentânea ruim para um emprego com situação permanente pior.  Há que sermos cuidadosos de não se mudar de emprego com frequência alta para não ganharmos a pecha de mercenário, no qual as empresas contratantes terão sérias dúvidas do comprometimento do funcionário.  Mas alguns sinais que o sol está se movendo devem ser observados: ociosidade, disparidade com a idade média dos equivalentes, estagnação em tarefas simples, distanciamento da chefia, entre outros bem menos sutis.  Observado isto, é hora de se procurar uma nova sombra.

As empresas devem tomar cuidado em não criar climas de insegurança generalizada e nem em exigir que todo funcionário almeje ser o diretor superintendente um dia, erro ainda comum cometido pelas chefias e os departamentos de RH.  Empresas que promovem excessivas “reciclagens” reduzem o moral de seus quadros, resultando em possíveis perdas de bons empregados, e incorrem no risco de contratarem substitutos pouco qualificados.  Afinal, os primeiros a saírem de empresas em turbulência são os mais qualificados, pois tem mais capacidade de se recolocarem, e só depois os acomodados.  Este é o motivo que as reciclagens devem ser feitas com muito critério e cautela.

Mas as empresas não são família e nem resort no Caribe para providenciar conforto e acomodação para seus empregados.  A sensação de tranquilidade e acomodação quem deve procurar somos nós e não esperar que isso venha de uma empresa.  É claro que é sempre bom trabalharmos em um local onde temos respeito e reconhecimento do histórico, da experiência e do legado de anos de bons serviços, mas não devemos esperar que isso seja certo e merecido.  Civilizações entraram em declínio por se acomodarem em situações transientes e o mesmo raciocínio é válido para nós.